A indústria do discurso De olho no bilionário mercado de palestras, nasce uma nova empresa para trazer personalidades ao Brasil
Carolina Guerra

Desde que o ex-premiê britânico Tony Blair deixou o cargo, em junho de 2007, estima- se que já tenha construído uma fortuna de US$ 25 milhões - boa parte disso fazendo o que ele mais sabe, ou seja, falar.
Só em um discurso realizado para empresários nas Filipinas, Blair abocanhou US$ 582 mil, tornando-se de longe o palestrante mais bem pago da história. Contratar outras personalidades do mesmo nível sai mais em conta, sim, mas nada que fique abaixo dos US$ 100 mil.
O ex-presidente americano Bill Clinton, por exemplo, cobra a bagatela de US$ 160 mil. Mesmo o político Al Gore, que não ganhou a corrida para a Casa Branca, se beneficia da fama de salvador do planeta para fazer uns bons milhares de dólares.
Estima-se que cada conferência de Gore não saia por menos de US$ 100 mil. Até o ex-presidente russo Mikhail Gorbatchev já foi visto em um cassino em Las Vegas falando sobre seu apoio ao então candidato Barack Obama no ano passado. Detalhe: Gorbatchev cobra até US$ 100 mil para aparecer.
Mais humilde, o discurso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso custa cerca de US$ 50 mil. São cifras que refletem o poder dessas estrelas do discurso, disputados a tapa para "dar uma palinha", principalmente, sobre a geopolítica mundial. Mas não são apenas eles que ganham.
Por trás da envolvente retórica e dos cheques polpudos, se escondem as agências especializadas em gerenciar as carreiras e organizar palestras desses midas dos discursos. De olho nisso, os empresários João Doria Jr., da Doria Associados, e Paulo Zottolo, presidente da Maior, empresa especializada em conteúdo do Grupo ABC, do publicitário Nizan Guanaes, se uniram para abrir a Seminars, que trará palestrantes de peso ao Brasil e também agenciará brasileiros no Exterior.
A estreia, marcada para o dia 24 de novembro, em São Paulo, será com ninguém menos que o ex-secretário geral da ONU KofiAnnan cujos honorários são estimados em US$ 160 mil. Neste caso, a palestra foi contratada pelo banco Santander, mas, em eventos abertos ao público, os ingressos chegam a custar R$ 2 mil por pessoa. "Trata-se de um mercado com um potencial gigantesco.
Nos Estados Unidos, ele movimenta US$ 15 bilhões ao ano. No Brasil, esse número não deve passar dos R$ 100 milhões", aponta Zottolo. Ao que tudo indica, a aposta é promissora. Só a cidade de São Paulo tem uma receita de R$ 2,9 bilhões por ano com eventos - número que pode ser incrementado com a indústria das palestras.
Para quem patrocina, por sua vez, também é um bom negócio. "As empresas estão buscando alternativas para fidelizar seus clientes. E quem vai também aproveita para agregar conhecimento e ainda aumentar seu network", explica Toni Sando, diretor-superintendente do São Paulo Convention & Visitors Bureau, uma entidade de incentivo ao turismo.
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