Difícil de tourear Por Carlos Sambrana, de Madri
 |
As propostas bizarras para estimular a economia revelam o desespero dos espanhóis diante da crise que assola o país |
Em meados de setembro, a âncora do telejornal noturno da Televisión de Galícia, canal transmitido na região norte da Espanha, iniciou a programação com uma notícia que, anos atrás, seria impensável em se tratando de uma das economias mais fortes da Europa.
A jornalista chamava a atenção para a história de um homem que, cansado de procurar emprego, havia decidido rifar o próprio trabalho. Por um dia, ele faria os serviços manuais na casa de quem ganhasse o prêmio: pintaria as paredes, arrumaria as fiações elétricas, reformaria o telhado... Na atitude do jovem espanhol há, é verdade, uma boa dose de marketing, mas ela revela muito mais do que isso.
Ela mostra como a Espanha, a terra dos mais exímios toureiros, não está conseguindo driblar o desembestado touro de Wall Street que atacou os mercados mundiais com uma fúria ímpar. De todos os países da zona do euro, a terra de Gaudí foi a que mais sofreu. No segundo trimestre deste ano, o PIB caiu 4,1% em relação ao mesmo período de 2008, num acumulado de quatro trimestres seguidos de queda, gerando uma profunda recessão.
Enquanto a taxa de desemprego na União Europeia alcançou 9%, os espanhóis amargaram o dobro do índice. A sensação de letargia econômica é reforçada pelos ataques diários às políticas econômicas do primeiro-ministro José Luis Rodriguez Zapatero. Nas ruas de cidades como Vigo, Madri e Barcelona, a palavra "Rebajas" (liquidação, numa tradução livre) está presente nas fachadas das principais lojas.
O nível de desespero para sair da marcha à ré e engatar a primeira é tão grande que algumas mulheres desempregadas passaram a oferecer serviços domésticos com pitadas de sensualidade. Elas lavam, passam e cozinham trajadas com microrroupas para satisfazer as fantasias dos patrões. Tudo isso, a rigor, estipulado no contrato de serviço. As esquisitices geradas pela recessão não param por aí. Existem empresas facilitando o divórcio para ganhar dinheiro.
É que, desde o início da crise, os índices de separação entre casais caiu vertiginosamente devido aos custos de manter duas casas. Atenta a esse fenômeno, uma corretora imobiliária decidiu pagar os custos dos trâmites legais do divórcio para quem comprar apartamentos com a empresa. O setor da construção civil, aliás, foi o que mais sentiu o baque. Considerado o pilar da economia espanhola por representar quase 40% do PIB, ele se viu paralisado.
O governo ainda tenta incentivar a economia investindo em obras públicas - o que é perceptível por quem caminha nos principais centros da Espanha - mas é pouco diante do que o setor imobiliário representava. Estima-se que hoje existam mais de 1 milhão de imóveis novos, nunca habitados, à procura de compradores. Detalhe: os preços caíram pela metade. Em Marbella, a idílica praia de veraneio frequentada por milionários de todos os cantos da Europa, casas que antes eram vendidas por 1 milhão de euros, atualmente saem por 500 mil euros.
Na charmosa avenida Passeig de Gràcia, um dos endereços mais nobres de Barcelona, não é difícil encontrar indícios da crise econômica. Basta observar os prédios, para ver diversas placas de aluga-se e vende-se. Dois anos atrás, esses imóveis eram disputados a tapa.
No curto prazo, não há como enxergar uma saída para essa situação. Se depender de estimativas do Fundo Monetário Internacional, então, vai longe. Acredita-se que a Espanha sairá da crise só em 2014. Nem mesmo o mais habilidoso toureiro conseguiria imaginar que um touro americano iria dar tanta dor de cabeça aos espanhóis
|