Comportamento
O lado escuro da bolsa Milhares de garotos mergulharam de cabeça na bolsa. Alguns contabilizam ganhos, mas muitos estão perdendo a juventude e colocando em risco o próprio futuro
Ana Clara Costa

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nome Danilo Bertasi idade 19 anos
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"Como na sala e a cada três garfadas volto para o computador para poder acompanhar o pregão"
Aos 16 anos, Danilo Bertasi era modelo, estudava no colégio Bandeirantes, um dos melhores de São Paulo, e mergulhava nos livros para passar no vestibular de medicina. Hoje, três anos depois, a realidade é outra. Ele tem mais sintomas de paciente do que de um futuro médico.
Com pressão alta, toma remédios para dormir e engordou 20 quilos. Não fotografa mais, desistiu da medicina e estuda administração de empresas. A mudança começou quando, influenciado por um amigo, Bertasi começou a investir na bolsa, especificamente em day trade - comprando e vendendo ações no mesmo dia.
"Vi que um amigo estava ganhando e pensei: se ele pode, eu também posso", conta o jovem. Bertasi entrou na empreitada de maneira intensa e viu as horas passadas na frente do pregão se transformarem em vício. "Já acordei às 3 da manhã para assistir à abertura do pregão de Xangai na Bloomberg", diz ele, que não dorme mais do que quatro horas por noite.
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nome G. Giron idade 23 anos
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"Consegui entrar num banco, mas, se não estivesse trabalhando, passaria o dia inteiro operando na bolsa"
Embora sua primeira operação tenha sido desastrosa, com um prejuízo de R$ 3 mil, Bertasi já acumulou algum patrimônio - que mantém em segredo - desde que se tornou investidor. Suas ações preferidas são as mais voláteis, como as das empresas LLX, MMX, OGX e MPX, do bilionário Eike Batista.
"Posso perder 10% em um dia e ganhar 20% no dia seguinte", conta. O problema, no entanto, não é quanto ele ganha ou perde com suas operações. Bertasi pode estar se tornando, sem perceber, um viciado precoce num jogo.
"Esse tipo de comportamento é compulsivo. É um desvio que, se não for tratado corretamente, pode acarretar consequências graves", afirma a psicóloga Vera Rita de Mello, coordenadora do núcleo de psicologia econômica da FipecafiUSP.
Hoje, o Brasil tem 521 mil pessoas que operam o chamado home broker. Destes, 6,6% são jovens de até 25 anos - e a grande maioria, que ainda não trabalha, passa o dia diante da tela do computador, dando ordens de compra e venda ou frequentando salas de bate-papo sobre ações. É quase uma patologia.
"Os jovens que entram hoje na bolsa são mais arrojados, correm mais risco, querem volatilidade e dificilmente carregam um papel de um dia para o outro. São fascinados por day trade", constata Rodrigo Puga, responsável pelo InvestBolsa, home broker da Spinelli Corretora.
Segundo Puga, jovens de até 25 anos fazem, em média, o dobro de operações que investidores mais experientes. Assim, podem estar mais expostos a prejuízos - em Las Vegas, capital mundial dos cassinos, constatou-se que milhares de apostadores com menos de 21 anos também estavam se tornando viciados em apostas
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nome S. Spinelli idade 15 anos
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"Perdi com a crise e entrei no day-trade para tentar recuperar o prejuízo. No fim, repeti de ano"
Assumidamente viciado na Bovespa, Bertasi traçou uma meta. Disse que quer ter R$ 10 milhões antes dos 25 anos. E hoje ele parece estar mais preocupado com isso do que em fazer coisas típicas da sua idade - como, por exemplo, virar uma madrugada numa boate.
Até mesmo um blog para investidores ele mantém na internet. "Não bebo nem fumo; meu único vício é comprar e vender ações." E o ganho de peso foi uma decorrência natural. "Costumo comer na sala e a cada três garfadas volto para o computador", diz.
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