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Roberto Lavagna
"A Argentina é vítima do populismo "
por Hugo Cilo

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Entrevista / Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia da Argentina

Pergunte ao casal Kirchner quem é o inimigo público número um da Argentina. É provável que tanto o ex-presidente Néstor como sua esposa, Cristina, que o sucedeu no cargo, mencionem o nome de Roberto Lavagna, um economista de 67 anos que se tornou persona non grata. O problema é que Lavagna virou desafeto dos dois mais pelos méritos do que pelos erros. Foi ele quem esteve à frente da espetacular recuperação da economia entre 2002 e 2005, quando o PIB chegou a crescer 10%. Depois, rompeu com os Kirchner e passou a acusar o país de manipular índices e intervir demais na economia. "Jogaram tudo fora", disse ele à DINHEIRO, que foi candidato à presidência em 2007 e será novamente em 2011.

DINHEIRO - O modelo econômico que tirou a Argentina do buraco foi abandonado. E hoje o país está novamente em crise. O que aconteceu?
ROBERTO LAVAGNA -
Para tirar a Argentina da pior recessão em 108 anos, implementamos em 2002 um inédito ajuste nas contas públicas. Pela primeira vez na história do país, houve superávit fiscal. Depois, criamos um ambiente de estímulo aos investimentos. O Estado deve competir com o setor privado, sem impedir de forma desleal que as empresas façam seus investimentos. Além disso, fortalecemos o consumo interno. Tudo ia bem, mas o governo Kirchner decidiu mudar o que estava dando certo. Não digo que a Argentina está falida, mas está muito diferente daquela que vimos anos atrás. Mudou para pior.

DINHEIRO - Mudou de que forma?
LAVAGNA -
A economia já crescia a um ritmo chinês. O PIB chegou a se expandir 10% ao ano. O desemprego estava baixo, em torno de 8%. Os salários em alta. O consumo estava muito forte. O cenário ideal para garantir um prolongado ciclo de crescimento. Daí o governo mudou as diretrizes, negligenciou o superávit fiscal e quis acelerar ainda mais o crescimento com forte aumento dos gastos públicos. Essa tentativa de superaquecer a economia gerou inflação, a pior doença que pode existir em qualquer economia. O desemprego hoje está em 12%. E a Argentina se tornou um lugar que não atrai mais investimentos.

DINHEIRO - Somente a inflação arruinou a Argentina?
LAVAGNA -
Em grande parte, sim. A inflação criou distorções na economia, destruiu a capacidade de compra dos trabalhadores, desestimulou novos investimentos. Foi o começo do fim. Tudo aquilo que tínhamos conquistado, foi destruído por erros do governo. Outros problemas surgiram como efeito colateral, mas a origem foi a inflação.

Samir Baptista/Ag. Istoé

DINHEIRO - Então, a Argentina deu um passo maior que a perna?
LAVAGNA -
A senhora que está hoje no poder (Cristina Kirchner) não só abandonou o modelo econômico que provou estar no sentido correto, como implementou um sistema que tem prejudicado todos os setores da economia. Se tivesse mudado, tudo bem, desde que mantivesse o crescimento. Não confirmou o êxito e ainda fez a país andar para trás.

DINHEIRO - Historicamente, a Argentina tem dificuldades para administrar em tempos de bonança, não?
LAVAGNA -
Infelizmente, sempre que tudo vai bem, mudanças políticas atrapalham. Já fomos a maior economia da América Latina décadas atrás, com os melhores indicadores econômicos e sociais. No entanto, de tempos em tempos, o governo comete os mesmos erros. Aconteceu de novo. Mais uma vez, a Argentina é uma vítima do populismo. Os governos querem controlar demais o país e exageram na dose.

DINHEIRO - O sr. perdeu as eleições em 2007 para Cristina Kirchner, mesmo sendo considerado por muitos um herói que tirou o país da crise. Por quê?
LAVAGNA -
O marido dela, Néstor Kirchner, também tinha uma imagem positiva na Argentina. Essa reputação influenciou positivamente na vitória da atual presidente. Mas, mesmo assim, o atual governo é bem diferente do anterior. Coisas que fazem parte da política.

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