O mundo pós-pânico O encontro de Pittsburgh consolidou de vez os emergentes e o G-20, enter rando o G-8. Mas o consenso sobre como dar fim aos
desequilíbrios globais não foi alcançado
Por Leonardo Attuch e Gustavo Gantois
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Os americanos deram boas-vindas ao mundo, mas têm elevado barreiras ao comércio global |
Desta vez, Lula não foi o "cara". No jantar oferecido aos convidados do G-20 no Conservatório Phipps, na noite da quinta-feira 24, em Pittsburgh, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi bem mais caloroso com outros líderes mundiais cujo apoio é vital para que os americanos avancem em temas de segurança, como a não proliferação nuclear. "Venha cá, Dimitri, temos poucas fotos juntos", disse Obama ao líder russo, Dimitri Medvedev. Ao encontrar Nicolas Sarkozy, Obama o abraçou efusivamente, como se fossem velhos amigos de faculdade. E ainda deu quatro beijos no rosto de Carla Bruni. "Não tenho a chance de vê-la tantas vezes", brincou o americano, sob o olhar atento de Michelle Obama. Quando o presidente Lula e a primeira-dama Marisa Letícia chegaram, já eram quase 20h, pelo horário local de Pittsburgh, e os anfitriões precisavam dar início ao jantar - o casal brasileiro foi o penúltimo, antes apenas do novo primeiro-ministro japonês,Yukio Hatoyama, e de sua esposa, Miyuki, que se desculparam pelo atraso. Lula não foi a estrela do evento, como havia sido no encontro realizado em Londres, no mês de abril, mas foi quem saiu com a maior vitória de Pittsburgh. Na sexta-feira 25, o governo americano anunciou ao mundo que o G-20 será o novo foro permanente de líderes globais para discutir a economia. "É o desenho que melhor reflete a cooperação mundial no século XXI", disse Mike Froman, negociador-chefe da equipe de Barack Obama no encontro.
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Lula e Obama: o brasileiro não foi a estrela do evento, mas saiu com uma vitória importante |
A ascensão dos emergentes é uma vitória brasileira, em especial do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Em outubro do ano passado, no auge da crise internacional, ele presidia um encontro de autoridades econômicas do G-20, em Washington, e recebeu uma visita do então presidente americano, George W. Bush, e do chefe do Federal Reserve, Ben Bernanke. Os dois pareciam atônitos e Mantega defendeu explicitamente que as soluções para a crise passassem a ser discutidas no âmbito dos emergentes. Na semana passada, em Pittsburgh, quando Mantega e os demais ministros de Finanças foram recebidos para um jantar paralelo ao dos presidentes, oferecido por Timothy Geithner, secretário do Tesouro, essa posição já era consensual. "Economias do G-20, como as do Brasil e da Índia, hoje são mais relevantes para o mundo do que as de alguns países do G-8", disse o ministro à DINHEIRO. O antigo clube não será extinto, mas seu papel deverá se limitar a discussões ligadas à segurança global.
O fortalecimento do G-20 também abre uma janela de oportunidade para que os emergentes pleiteiem maior espaço em outros organismos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional. Na tarde da sexta-feira, os ministros ainda debatiam a posição brasileira, que previa a transferência de 7% das cotas do FMI aos emergentes - os europeus falavam em 3%. Mas Mantega havia conseguido, no jantar da véspera, obter o compromisso de Geithner de aumentar o peso dos emergentes no Banco Mundial. Outros pontos pareciam emperrados.
Uma das propostas dos EUA em Pittsburgh era equilibrar o comércio mundial. Previa que países com grandes superávits externos, como China, Japão e Alemanha, passassem a exportar menos e a consumir mais, contribuindo para a queda do déficit norte-americano. A ideia, no entanto, foi rechaçada pela alemã Angela Merkel, que não pretende reorientar o modelo exportador de seu país.
Esse impasse pode acabar dando fôlego às tendências protecionistas na administração Obama. No início de seu mandato, ele lançou o Buy American Act, que exigia que as empresas americanas dessem preferência ao aço produzido localmente. Semanas atrás, ele eleveu para 35% o imposto de importação dos pneus chineses. "O risco de uma escalada protecionista é cada vez maior", disse à DINHEIRO o investidor Mohamed El-Erian, da Pimco, que administra mais de US$ 840 bilhões em fundos. Nos encontros com outros presidentes, Lula defendeu esforços para o relançamento da Rodada Doha e um novo acordo de liberalização comercial. Mas a chance de que isso ocorra, com os EUA rodando com uma taxa de desemprego de 10%, é mínima. "O endividamento da sociedade americana é de 370% do PIB", diz o economista Paulo Rabello de Castro. "E eles terão de brigar para exportar mais."
O próprio Brasil tem um contencioso comercial ainda não resolvido com os americanos. No mês passado, a Organização Mundial do Comércio deu ganho ao Brasil no caso do algodão subsidiado pelos EUA. A retaliação, de US$ 800 milhões, ainda não foi decidida pela Câmara de Comércio Exterior, que pediu um prazo de dois meses para avaliar o caso. "Não pode mos perder de vista o objetivo principal, que é a redução de subsídios", diz Haroldo Cunha, presidente da Abrapa, que representa os produtores de algodão. Mas o governo americano caminha para o lado oposto. A nova Farm Bill prevê que os produtores de algodão receberão US$ 1 bilhão em subsídios pelos próximos cinco anos.
"Em momentos de crise, há sempre aumento no protecionismo", avalia o embaixador Sergio Amaral, exministro do Desenvolvimento. Sem consenso no comércio, os líderes mundiais avançaram em outros pontos, como o aumento da regulação financeira e a redução dos bônus concedidos a executivos de bancos - a tendência é que eles fiquem atrelados a resultados de longo prazo.
Pittsburgh foi a sede do terceiro encontro dos líderes do G-20, desde crise - e a cidade, como de costume, foi tomada por protestos antiglobalização. O primeiro, em Washington, ocorreu em outubro de 2008 e foi marcado pelo susto com a quebra do Lehman Brothers. O segundo, o de Londres, em abril de 2009, talvez tenha sido o ponto de reversão da crise. Quando o mundo estava à beira do abismo, os líderes internacionais adotaram políticas coordenadas de estímulo econômico, com bilionários pacotes fiscais - e que ainda devem ser mantidos. Este último, da semana passada, teve um ganho, que foi o reconhecimento pelos países desenvolvidos do papel dos emergentes, mas avançou pouco num aspecto crucial: a liberalização do comércio. E as consequências para a economia talvez não sejam tão positivas como foram em Londres. A próxima escala, em novembro, será em Seul, na Coreia.
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Pittsburgh: um símbolo da renovação |
A vitrine americana
O que Pittsburgh ensina ao mundo
Quando Barack Obama elegeu Pittsburgh para sediar o encontro do G-20, poucos entenderam o motivo. Conhecida como a cidade do aço, a capital da Pensilvânia cresceu sob a sombra da fuligem de suas fábricas. E foi essa força industrial que chegou a moldar o nome do time de futebol local, o Pittsburgh Steelers, vencedores do último Super Bowl. Mas a cidade se reinventou. Com a decadência e falta de competitividade das siderúrgicas, que perderam 120 mil empregos na década de 80, a cidade buscou novos caminhos e é hoje considerada a capital mundial da construção sustentável, com os chamados green buildings. O exemplo emblemático é o Centro de Convenções David L. Lawrence, sede das reuniões do G-20.
Hoje, o setor que mais gera empregos na cidade é a medicina de vanguarda. Além disso, várias indústrias farmacêuticas, como a Bayer, instalaram centros de pesquisa na cidade. "Pittsburgh transformou- se, depois de alguns momentos muito difíceis, em uma cidade que está competindo na economia mundial", justificou Obama. Ou seja: a cidade é um embrião do que o presidente deseja para os Estados Unidos. Um país que reduza sua dependência em relação ao petróleo e abrace de vez tecnologias renováveis. E que também seja capaz de renovar sua liderança econômica. |
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