David Altig, vice-presidente do Fed
"Vamos lavar pratos para pagar o jantar" Gustavo Gantois
David Altig é um dos mais carismáticos membros do Federal Reserve. Formado pela Brown University, ele sempre foi um fervoroso defensor do livre mercado. Hoje, no entanto, o professor da Universidade de Chicago está convencido da necessidade de criação de marcos regulatórios para o sistema financeiro. Nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO, Altig traça com um otimismo envergonhado o panorama da economia americana. Parte do bom humor veio da confirmação de que o PIB do país caiu só 1% no segundo trimestre deste ano, melhor do que os 2% de recuo previstos. "Tivemos o jantar durante muito tempo, enchemos a barriga e chegou a hora de pagar a conta", diz ele. A seguir, os melhores trechos.
DINHEIRO - O sr. vem realizando algumas palestras sob o título "Será que acabou?". Qual é a resposta?
DAVID ALTIG - Se estivermos falando do apocalipse financeiro, é provável que tenha acabado. Isso não é nenhuma ironia. Não sabemos o que pode acontecer pela frente. E essa é uma das lições que tiramos dessa crise. Se estivermos falando da recessão, aí temos outros matizes. Está bastante claro que vai haver um crescimento positivo no terceiro trimestre. Talvez um pouco menos do que vai acontecer na Europa e no Japão, mas vai acontecer o fim da recessão.
Só não sabemos se teremos uma recuperação rápida ou ainda enfraquecida a partir disso. O problema é que o comitê que define se estamos tecnicamente em recessão é um tanto lento. A de 2001, por exemplo, terminou oficialmente em novembro daquele ano, mas o comitê só nos disse isso em julho de 2003.
DINHEIRO - Mas há como garantir que a recessão está perto do fim?
ALTIG - Nós recebemos na semana passada um relatório sobre bens de consumo que foi positivo. A mensuração da atividade industrial, que teve queda considerável durante a recessão, volta a se expandir agora. Já as vendas não estão indo tão bem. O gasto do consumidor também não. A melhor notícia que podemos tirar é que não está piorando. Estou descrevendo essa situação na economia americana há um bom tempo, desde que o presidente do Fed, Ben Bernanke, mencionou sinais de que haveria crescimento positivo, o que vem sendo chamado de primavera econômica. Eu tenho uma expressão um pouco menos gentil que essa. Se alguém está martelando sua cabeça duas vezes por dia e ele passa a martelar uma única vez, isso é uma melhora e tanto.
 |
DINHEIRO - Um dos personagens mais controversos da crise, o economista Nouriel Roubini disse recentemente que a crise não acabou e que ainda pode ter graves repiques. Pelo que o sr. diz, ele está errado?
ALTIG - O que é verdade é que as condições para que as coisas voltem ao normal estão longe. Nouriel está certo ao dizer que podemos ver esses repiques no curto prazo, até mesmo em reação aos pacotes que estão sendo feitos. Ele também está correto, por outro lado, ao dizer que as coisas estão indo bem devagar e ainda são frágeis. Eu não preveria um novo choque tão forte, com a magnitude daquele do final do ano passado. Não preveria um crescimento negativo, mas que há um enforcamento da economia não tenho dúvida.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >> |