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Mohamed El-Erian, gestor da Pimco
"Os preços das ações estão fora da realidade"
Leonardo Attuch

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Uma paranoia construtiva. Assim Mohamed El-Erian define a filosofia que ele ajudou a implantar na Pimco, uma das maiores gestoras de recursos do mundo, com mais de US$ 841 bilhões em ativos e foco especial nos mercados emergentes.

El-Erian acredita que a alta recente das bolsas só será sustentável se a demanda privada vier a substituir os gigantescos estímulos fiscais e monetários dos governos - o que, segundo ele, ainda levará tempo.

Em relação ao Brasil, ele, que lançou por aqui o livro Mercados em colisão (Ediouro, R$ 54,90) é otimista. "É um país que hoje reúne todas as condições para uma prosperidade de longo prazo." Leia a seguir sua entrevista exclusiva à DINHEIRO

DINHEIRO - Um dos argumentos do seu livro é o de que os mercados financeiros do amanhã colidiram com os de ontem. Isso significa uma migração do poder econômico dos Estados Unidos para os emergentes, liderados pela China?
MOHAMED EL-ERIAN -
Efetivamente, o fenômeno que nós estamos testemunhando é a chamada ascensão do resto, um grupo de países liderado por economias emergentes sistemicamente importantes, como o Brasil, a China e a Índia. E este processo está sendo acelerado pela dimensão da crise que tomou parte do capitalismo anglo-saxão - em particular nos Estados Unidos

DINHEIRO - Nos últimos anos, o rombo internacional da economia americana cresceu significativamente, enquanto os emergentes acumularam trilhões em reservas internacionais. Essa é uma das causas macroeconômicas da crise?
EL-ERIAN
- É, certamente, um dos vários fatores e reflete o fato de que, durante um bom número de anos, houve aberrações na economia global que nem os mercados nem os principais líderes políticos mundiais levaram em consideração. Estavam acontecendo mudanças estruturais importantes na economia mundial. E o resultado é que muitos foram surpreendidos pelos acidentes no mercado financeiro e pelos erros de política econômica.

DINHEIRO - Há, como o sr. mesmo diz, um grande desequilíbrio no comércio internacional. A crise poderá reequilibrar as coisas, fazendo com que as economias emergentes consumam mais e exportem menos?
EL-ERIAN -
A crise está, de fato, ajustando alguns desequilíbrios da economia mundial, mas, infelizmente, isso está ocorrendo em um nível de atividade inferior ao que seria necessário. As consequências disso são uma queda no padrão mundial de bemestar econômico e também o aumento do risco de protecionismo comercial.

DINHEIRO - O consumidor da Ásia e de outras nações emergentes poderá substituir o consumidor americano?
EL-ERIAN -
Ao longo do tempo, os consumidores dos países emergentes irão certamente tomar o lugar do superalavancado e superendividado consumidor dos Estados Unidos. Mas o crescimento nos mercados emergentes será gradual e ainda terá que superar muitos obstáculos e contratempos. Apesar disso, esse aumento do poder de compra nas nações emergentes é a parte mais importante da história que está sendo escrita para reequilibrar a economia mundial.

DINHEIRO - Nesta crise, as ações das empresas de economias emergentes descolaram mais rapidamente das dos mercados desenvolvidos. Isso significa que os emergentes já são menos vulneráveis aos choques internacionais?
EL-ERIAN -
A hipótese do descolamento suave foi confirmada - o que significa que os emergentes podem se recuperar mais rapidamente do que os países mais industrializados. Mas a hipótese de um descolamento maior, com os emergentes assumindo o papel de locomotiva e de grande motor do crescimento econômico mundial, não se provou verdadeira.

DINHEIRO - A recente recuperação da economia e a alta das bolsas foram estimuladas pelos bilionários pacotes de estímulo fiscal e monetário dos governos. O que acontecerá se os governos pisarem no freio?
EL-ERIAN -
Eu caracterizo a última fase dessa alta dos mercados como um rali aditivado, puxado por dois fatores importantes, porém temporários: os altíssimos estímulos fiscais e a queima dos estoques das indústrias. Para que esse rali seja sustentável, será preciso encontrar um considerável componente de demanda privada na economia. E isso ainda é muito incerto. Portanto, os valores das ações das empresas em vários mercados estão bem acima do que os fundamentos econômicos permitiriam.

DINHEIRO - Os investidores estão apostando muito no Brasil por uma combinação de fatores: força econômica, estabilidade política e uma importante conexão comercial com a China. O sr. prevê um longo período de crescimento para o Brasil?
EL-ERIAN
- O Brasil reúne hoje um extraordinário conjunto de condições para manter sua estabilidade econômica e alcançar uma prosperidade de longo prazo. Portanto, é um país bem posicionado para a nova normalidade que virá depois da crise atual. A única coisa importante a lembrar é que a materialização do progresso não é automática. Ela requer a continuidade de políticas econômicas consistentes e um avanço adicional em reformas que possam ampliar a produtividade da economia.

DINHEIRO - O Brasil ainda tem uma economia que é mais competitiva internacionalmente em commodities agrícolas e minerais. Isso é ruim?
EL-ERIAN -
O ponto mais importante é que o crescimento dos países nos próximos anos não será mais fruto de engenharias financeiras. Dependerá do lastro em atividades reais da economia global, que está percorrendo uma estrada acidentada, rumo a um novo padrão de normalidade.

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