Os números enganam Por Amauri Segalla

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Governo diz que o ritmo de destruição da Amazônia é o menor em 20 anos, mas isso é uma verdade relativa. Dados recentes revelam uma tendência diferente
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Platão, o grande filósofo grego, escreveu que os números governam o mundo. Eu acrescentaria um complemento a essa frase: mas são os homens que governam os números.
Eles, os números, servem para quase tudo na vida. Até para distorcer a realidade. Na semana passada, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, apresentou os dados do desmatamento na Amazônia. Disse o ministro que a derrubada de árvores da floresta brasileira atingiu o menor patamar em 20 anos.
Minc não mentiu. O que o ministro fez foi usar os indicadores que interessam e desprezar aqueles que não o favorecem. Minc, afinal, é um especialista na arte da política, que - todos nós sabemos - não sobrevive sem esse tipo de adaptação dos fatos conforme o interesse que está em jogo.
Vamos aos dados. Segundo o Sistema Prodes, que detecta desmatamentos acima de 6,5 hectares, a taxa anual de devastação da Amazônia deverá ser de nove mil quilômetros quadrados. As análises do Prodes só são oficialmente divulgadas em dezembro, mas a coleta de informações vai de agosto de um ano a julho de outro.
Ansioso, Minc não obedeceu o cronograma regular de apresentação de resultados e, feliz da vida, antecipou a novidade. Parece uma notícia e tanto. Desde que a série começou a ser construída, o índice de desmate nunca foi tão baixo. Ok, isso é uma verdade. Mas uma verdade relativa. O que Minc não disse é que a taxa de derrubada vem apresentando um viés de alta. Basta consultar os... números. Segundo um outro modelo de medição, o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), da ONG Imazon, uma área de 532 quilômetros quadrados desapareceu do mapa em julho passado.
O índice aponta um aumento de impressionantes 93% em relação ao mesmo mês do ano passado. Informações coletadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) confirmam que a floresta voltou a ser ceifada velozmente. E isso começou há pelo menos três meses. Ignorar que o desmatamento vem apresentando uma tendência de alta seria o mesmo que afirmar que a economia brasileira continua em crise.
Nos últimos 12 meses, o PIB nacional sofreu com a pandemia financeira global, mas todos os indicadores apontam para uma forte retomada neste final de ano. Os balanços das grandes empresas brasileiras apresentam a mesma, digamos, predisposição. A crise de até pouco tempo atrás deu lugar a balanços que, dizem as projeções, vão fechar no azul. É justamente a isso que os analistas devem se ater.
Não faz sentido apresentar um dado isoladamente. É preciso colocá-lo num determinado contexto e entender o seu real significado, nem que isso cause decepções. As mais recentes informações sobre o desmatamento da Amazônica revelam um movimento de forte destruição, a despeito do que os números do ministro do Meio Ambiente tentaram demonstrar.
Os ambientalistas reconhecem que nos últimos dois anos o governo intensificou as ações de combate ao desmatamento, com o aumento da fiscalização e a punição para quem agride a natureza. Mas algo aconteceu de três meses para cá.
Segundo o Greenpeace, as obras do PAC incentivaram a ocupação das terras e o governo engavetou projetos de novas unidades de conservação, o que teria encorajado a destruição.
Seja o que for, não dá para admitir que as autoridades utilizem as informações disponíveis de forma distorcida. Números são aliados da verdade, mas eles também enganam.
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