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Disney agora tem a força
Com a compra da Marvel, famosa por seus personagens bons de briga, gigante do entretenimento passa a mirar o público adulto e masculino

Priscilla Portugal

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Homem de ferro: primeiro filme da série rendeu US$ 585 milhões. Bob Iger, CEO da Disney (abaixo), espera que o sucesso chegue aos cofres da empresa

Desde o lançamento de Branca de Neve e os Sete Anões, em 1937, a Disney jamais deixou de ressaltar os valores morais de seus personagens. Mickey Mouse, Cinderela, A Bela Adormecida, para citar só alguns, são clássicos que fizeram enorme sucesso junto à criançada com um apelo que durante muitos anos se revelou infalível: todos eles são personagens bem-comportados, de um decoro acima de qualquer suspeita. A fórmula perdura até hoje. O último grande sucesso da empresa, a série High School Musical, gira em torno do cotidiano de um grupo de adolescentes que não fumam, não bebem e jamais trocam beijos apaixonados.

Na semana passada, a empresa deu uma guinada histórica. A gigante criada por Walt Disney anunciou que vai desembolsar US$ 4 bilhões pela compra da Marvel, autora e detentora de mais de cinco mil personagens, entre eles heróis violentos e bons de briga como Wolverine, Homem-Aranha e Homem de Ferro. Este último é o oposto de tudo o que a Disney sempre pregou. No filme, exibido no ano passado, o ator Robert Downey Junior, que interpreta o Homem de Ferro, é um alcoólatra mimado que não se importa com ninguém e que nem sequer diz adeus às namoradas depois de passar a noite com elas.

Nos últimos anos, poucas empresas na área de entretenimento se revelaram tão rentáveis quanto a Marvel. Desde 2006, suas vendas cresceram 30%, o que a levou a deter mais da metade do mercado mundial de publicações em quadrinhos. Mas o negócio envolve acima de tudo questões estratégicas. A Disney não tem conseguido atrair o público masculino na mesma medida em que conquista as garotas. Estimase que mais de 70% do público que foi aos cinemas ver High School Musical e Hannah Montana é formado por meninas. Com a Marvel, a Disney passa a contar com um portfólio mais abrangente, formado por personagens já consolidados no segmento masculino.

Ao comprá-la, a Disney afeta suas rivais diretas, como a Paramount, a Sony e a Fox, que produzem e distribuem nos cinemas os filmes inspirados nos super-heróis da Marvel. A Paramount anunciou no ano passado um acordo para distribuir cinco filmes da Marvel, incluindo duas sequências do Homem de Ferro. É um negócio lucrativo. Apenas o primeiro filme do personagem rendeu US$ 585 milhões. "É natural que, com o tempo, a Disney passe a deter a exclusividade na produção de filmes com esses personagens", disse à DINHEIRO David Joyce, analista de mídias da consultoria americana Miller Tabak. "Suas concorrentes devem estar muito preocupadas neste momento."

A aquisição comprova a ousadia de Bob Iger, 58 anos, que desde 2005 ocupa o cargo de presidente da Disney. Em 2006, Iger acertou a compra da Pixar (estúdio que produziu animações como Toy Story e Procurando Nemo) por US$ 7,4 bilhões. O resultado foi fantástico para os cofres da companhia: Cars, Ratatouille, WALL-E e Up, filmes criados pela Pixar, renderam juntos mais de US$ 2 bilhões. Iger diz que, com a compra da Marvel, a Disney poderá usufruir do licenciamento dos personagens em produtos como brinquedos e roupas, além de explorá-los em seus parques temáticos. Na semana passada, surgiram rumores de que o executivo estaria interessado também na DreamWorks, estúdio de Steven Spielberg responsável por sucessos como Shrek, um ogro simpático e politicamente incorreto. E que ironia se isso de fato acontecer. Em seu primeiro filme, Shrek ridiculariza a própria Branca de Neve.

 

 


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