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O piloto azarado da Chrysler
Com a crise na montadora norte-americana, o gestor Stephen Feinberg viu seu fundo Cerberus perder quase US$ 5 bilhões. E agora?

Ana Clara Costa

fotomontagem: caio graça

comente a matériaCerberus, na mitologia grega, era um monstruoso cão de várias cabeças que não deixava nenhuma alma sair do reino dos mortos. Não foi de estranhar, portanto, que o americano Stephen Feinberg, gestor do Cerberus Capital Management, tenha impedido os cotistas de seus fundos de hedge de realizar saques a partir de dezembro do ano passado, durante a crise que assolou a economia dos Estados Unidos. O motivo era a iminente bancarrota da Chrysler, controlada pela área de private equity da Cerberus, que lançava dúvidas sobre o futuro desse ícone de Wall Street. Em abril, a montadora pediu concordata e só sobreviveu graças a um acordo com a Fiat e o socorro de US$ 6 bilhões do governo Obama.

Somente em agosto Cerberus, ou melhor, Feinberg, respirou fundo e reabriu as portas dos fundos de hedge. Seus clientes, outrora fiéis, bateram em retirada. Em poucos dias, ordenaram saques de 60% do patrimônio líquido, numa fuga de US$ 4,7 bilhões. Mas irão receber o dinheiro lentamente, nos próximos quatro anos. Na terça feira 1º, a gestora enviou um comunicado aos investidores assegurando que está longe da ruína. Será?

Aos 49 anos, Feinberg é jovem demais para desistir. Formado em economia e política pela universida de Princeton, fundou a Cerberus em 1992, em Nova York. Fez fama e fortuna em Wall Street e mudou-se para uma charmosa townhouse de quatro andares no Upper East Side de Nova York. Entre seus clientes ilustres tinha o secretário da Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, e o empresário Michael Dell.

Tem nos seus quadros o ex-secretário do Tesouro John Snow. Feinberg continua discreto e conserva hábitos simples, apesar dos rendimentos anuais estimados em US$ 50 milhões. Gosta de beber cerveja Budweiser e caçar nos fins de semana.

Quando decidiu comprar a Chrysler da alemã Daimler Benz, em 2007, Feinberg era considerado um dos maiores gestores de private equity dos Estados Unidos. Tanto que conseguiu convencer seus investidores de que comprar uma empresa automobilística endividada em um período de desaquecimento econômico poderia ser uma boa ideia. Não era.

Quando começou a dar os primeiros passos em Detroit, a Cerberus logo colocou seus melhores gestores no comando da Chrysler. Mas, em vez de sanar o caixa deficitário da montadora, a gestão de Feinberg aumentou a dívida para US$ 10 bilhões ao final de 2007. Um erro e tanto para um fundo controlador de empresas que, juntas, possuíam um faturamento anual superior a US$ 30 bilhões em 2005.

Os fundos de hedge (espécie de multimercados), que em princípio não têm ligação direta com os investimentos da área de private equity, foram afetados pela desconfiança do mercado durante a agonia da Chrysler e da General Motors. A Cerberus também controlava o GMAC, braço financeiro da GM. A Cerberus ainda é dona de dezenas de companhias dos EUA, Europa e Ásia, mas nenhuma com a representatividade da Chrysler. Agora, os fundos Cerberus Partners LP e Cerberus International Ltd. serão liquidados e os investidores que decidirem permanecer serão direcionados a dois novos fundos com taxa de administração mais baixa. Os dissidentes poderão sair, mas reaverão seus dólares por completo somente em 2013. A ideia de Feinberg é pagar apenas 5% do capital na hora da saída. O restante deverá ser pago gradativamente, conforme a venda dos ativos.

US$ 10 bilhões foi o valor que a dívida da Chrysler alcançou em 2007, após ser comprada pelo Cerberus

Apesar das dúvidas em relação à sua saúde financeira, a Cerberus anunciou na última semana de agosto a criação de uma nova carteira com um patrimônio líquido inicial de US$ 1 bilhão. O porta-voz da empresa, Tim Price, divulgou um comunicado para acalmar os ânimos. "Não há nada de verdadeiro nessa especulação", disse. Boato ou fato, a verdade é que os multimercados da gestora ficaram 20% no vermelho em 2008 e ainda continuam em baixa de 3% este ano.

Costumavam render anualmente algo em torno de 20%. O tempo dirá se, desta vez, a atenção pública em torno da gestão de Feinberg resultará em maior cerco aos fundos de hedge pela SEC, a CVM americana. Enquanto isso, Cerberus continuará comendo o pão que o diabo amassou.

 


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