Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu
"A internet pôs o consumidor no comando" Por ROSENILDO GOMES FERREIRA

Mestre e doutor em engenharia industrial pela Universidade de Stanford, Helio Mattar, 61 anos, comandou grandes corporações como a GE-Dako. No início da década, ele deixou a carreira executiva para se dedicar ao terceiro setor.
À frente do Instituto Akatu, que no idioma tupi-guarani significa mundo melhor, Mattar se tornou referência no debate sobre consumo sustentável. "As empresas que quiserem sobreviver terão de adotar uma postura transparente e valorizar a responsabilidade socioambiental", avalia.
Nesta entrevista à DINHEIRO ele também critica a miopia do governo na questão da destinação de resíduos e defende a concessão de incentivos tributários para as atividades da chamada economia verde. A seguir, os principais pontos:
DINHEIRO - Recentemente, o Wal-Mart e o Carrefour lideraram um boicote aos frigoríficos acusados pelo Greenpeace de comprar gado criado em áreas desmatadas da Amazônia. Qual lição se pode tirar desse episódio?
HELIO MATTAR - Esse exemplo mostra que houve uma enorme mudança na sociedade brasileira. Se há dez anos acontecesse essa mesma denúncia, certamente boa parte dos consumidores não teria uma percepção da relação entre o desmatamento e o aquecimento global. Nem mesmo da ilegalidade presente em uma cadeia produtiva específica. A forte repercussão fez com que os frigoríficos abandonassem o discurso inicial de minimizar o problema e se comprometessem em adotar práticas sustentáveis. A reação se deve a uma série de fatores que incluem desde o trabalho de sensibilização dos consumidores, feito pela mídia e também por ONGs como o Akatu, até a evolução no processo de responsabilidade socioambiental das empresas.
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DINHEIRO - Mas uma das redes que vetam o chamado boi pirata também abriga seguranças acusados de espancar até a morte um cliente que roubou produtos. Não é um contrassenso?
MATTAR - Não podemos conceber que uma empresa legalmente constituída, quer seja na área de segurança quer seja na de varejo, tenha como política recomendar o espancamento de clientes flagrados em atos ilícitos. Esse fato deve ser averiguado e os responsáveis punidos severamente. Saindo desse exemplo extremo, é preciso ter em mente que até mesmo as corporações que adotam uma postura sustentável estão sujeitas a falhas. As contradições fazem parte do processo de mudança da cultura de um grupo social.
DINHEIRO - Isso causa grandes impactos na imagem das empresas?
MATTAR - Sem dúvida. E o estrago depende da percepção do consumidor e da intensidade no processo de divulgação do fato. As empresas varejistas viram que corriam o risco de ter sua imagem abalada caso não agissem rápido. Os empresários têm de entender que, na era da transparência e da visibilidade, há cada vez menos espaço para quem adota uma postura contrária à sociedade e ao meio ambiente.
DINHEIRO - A internet, com suas redes sociais, pode ser uma ferramenta na luta pela sustentabilidade?
MATTAR - Creio que sim. O consumidor é influenciado pelas informações que ele recebe. Na sociedade do passado, há cinco anos, a função de informar o consumidor era somente da grande mídia. Hoje, 47% dos brasileiros têm acesso a internet em casa, no trabalho ou em Lan Houses. E a navegação se dá basicamente por redes sociais como Orkut, MySpace, Facebook, além de dispositivos via aparelho celular como Twitter e SMS. E isso certamente muda a velocidade da reação do consumidor à informação. Por isso, os consumidores já estão no comando. As empresas ainda não perceberam o risco que estão correndo com o poder dessa interconectividade.
DINHEIRO - As ONGs em geral, e o Akatu, em particular, não usam essas ferramentas de uma forma mais efetiva. Por quê?
MATTAR - Isso se deve ao fato de as lideranças das ONGs serem formadas por uma geração que não viveu o boom da internet e dos mecanismos que acabei de mencionar. Isso vale também para o Akatu. Somente agora estamos incorporando todas essas ferramentas. Estamos no Orkut e acabamos de nos conectar ao Twitter. Também pretendemos rejuvenescer nosso Conselho de Administração, formado por pessoas com mais de 30 anos. Além disso, vamos montar um Comitê de Jovens e adotar uma nova postura de ação que é o compartihamento, em tempo real, de informação e conhecimento.
DINHEIRO - Fala-se muito em diversidade no ambiente corporativo e na necessidade de dar chances iguais para homens e mulheres. Mas por que isso não acontece na prática?
MATTAR - Na minha opinião, essa não é uma postura geral no mercado. Muitas companhias estão sinceramente buscando alinhar o discurso à prática. Outras, porém, ainda acreditam que é possível falar uma coisa e fazer outra, correndo o risco de ser desmascarada. De qualquer forma, as pesquisas mostram que a evolução neste campo tem sido bastante lenta
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