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Marcio Pochmann, presidente do Ipea
"O fim da miséria no Brasil já está no horizonte"
Por Denize Bacoccina

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Roberto Castro/AG IstoÉ

O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, é um ferrenho defensor de projetos de desenvolvimento e políticas de longo prazo.

Para ele, essa é uma filosofia que precisa ser definitivamente incorporada pelo Estado. Algo que vai além dos mandatos dos presidentes. Mas ele também enxerga fenômenos positivos no Brasil.

Um estudo elaborado pelo próprio Ipea, ancorado nos indicadores de emprego, trouxe uma boa notícia: a combinação entre crescimento da economia e fortalecimento dos programas sociais reduziu em proporções históricas a miséria no País.

E deve continuar. Basta, segundo ele, não repetir os erros do passado. "Em crises anteriores, a pobreza teria crescido. Além de não crescer, tende a cair", disse ele à DINHEIRO.

DINHEIRO - Como avalia a crise mundial e os efeitos dela para o Brasil?
Marcio Pochmann -
A crise está provocando uma reestruturação profunda no sistema capitalista mundial. Isso provocou uma decadência relativa dos Estados Unidos - estamos transitando de um sistema global de unipolaridade para uma nova realidade de multipolaridade, em que os Estados Unidos seguem importantes, mas ganha importância a União Europeia e se abre espaço para o Brasil na liderança da região sul-americana. O Brasil tem uma oportunidade de ganhar espaço, mas para isso precisamos ter uma política de reinserção.

DINHEIRO - O que é preciso fazer para ganhar este espaço?
Pochmann -
O Brasil já ocupa espaço naturalmente pelo seu tamanho, mercado interno, sua população, estrutura produtiva, suas universidades, seu sistema de inovação. Mas ainda precisamos avançar em três pontos. Um deles é um sistema de defesa, com um grande avanço em desenvolvimento tecnológico para defesa. A segunda condição é ter uma moeda de curso internacional. E em terceiro lugar é preciso avançar no sistema de tecnologia, de inovação. Não são vocações. São condições criadas.

DINHEIRO - E o Brasil está avançando em alguma dessas áreas?
Pochmann
- Para ter capacidade de liderar, uma nação precisa ter um projeto de longo prazo, um planejamento. Infelizmente, nas duas últimas décadas o Brasil abandonou a perspectiva de desenvolvimento, achando que a simples evolução das forças de mercado seria suficiente. O Ipea está trabalhando numa agenda de longo prazo, a Agenda 2022. Nosso esforço todo é para que em 2010 o Brasil tenha uma agenda do desenvolvimento, tratando dos seus nós, das suas dificuldades, e das potencialidades.

DINHEIRO - Muitos dizem que o principal problema do Brasil é a educação É a sua opinião?
Pochmann
- O principal problema do Brasil é a ausência de uma maioria política que lidere um projeto de desenvolvimento. Nas crises, de um modo geral, o Brasil aproveitou as oportunidades. A crise de 1929 representou a depressão, as dificuldades, mas também permitiu a criação de uma maioria política que liderou um projeto de desenvolvimento por quase 50 anos. A crise da dívida externa praticamente rompeu com esta maioria política. A transição da democracia não teve uma maioria política combinada com desenvolvimento. O Brasil precisa ter esta liderança regional, que passa pela visão de uma maioria política que apoie este projeto. O governo do Lula e os outros antes dele são governos de disputa. Não há uma maioria consolidada. Há dificuldade em coordenar as políticas macroeconômicas. De certa forma, a crise está forçando uma maior convergência entre as políticas fiscal e monetária.

DINHEIRO - A crise ajudou a unificar o discurso e as ações. Mas, agora que a crise está passando, isso continua?
Pochmann
- O risco que corremos é justamente achar que este esforço para superar a crise nos levará a uma situação de bem-estar pré-crise. Isso não necessariamente acontecerá. O que permitirá ou não avançarmos em direção a uma maior confluência será o desfecho eleitoral. O desfecho eleitoral poderá garantir mais oito anos, ou pelo menos quatro de continuidade desta combinação, que não é uma tradição no Brasil, de expansão econômica com melhoras sociais. A crise provocou uma inflexão neste movimento. Podemos sair da crise acentuando isso, ou não. A forma como estamos enfrentando a crise é uma forma inovadora. Nas crises anteriores, não adotamos políticas compensatórias como agora, de redução dos tributos, aumento do salário mínimo. Na crise dos anos 80, por exemplo, o BNDES teve um papel mais de hospital. Agora nós vemos um aporte de R$ 100 bilhões para uma reorganização patrimonial. Há um esforço de aproveitar a crise para fortalecer mecanismos que antes não estavam tão fortalecidos.

DINHEIRO - Mas houve avanços recentes no combate à pobreza, segundo a própria pesquisa do Ipea, não?
Pochmann -
Houve, sim. Em um período de cinco anos, quase quatro milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza no Brasil e entraram para o mercado de consumo. Nas seis regiões metropolitanas que estudamos, a pobreza não cresce desde o último trimestre do ano passado. Em crises anteriores, a pobreza teria crescido. Além de não crescer, tende a cair. Isso é resultado de aumento do salário mínimo e de políticas de inclusão, como o Bolsa Família. Mas é algo lento e precisa ter continuidade e estar em sintonia com outras iniciativas, como a redução do desemprego e o fortalecimento das empresas. O fim da miséria no Brasil está no horizonte, o da extrema miséria, mas o combate à pobreza ainda levará mais tempo.

DINHEIRO - Em relação à crise, aqui no Brasil as medidas estão sendo tomadas no sentido correto?
Pochmann
- Acho que foram no sentido correto. Na velocidade nem sempre. A redução dos juros, por exemplo, não teve a velocidade necessária. Primeiro que os juros não deveriam ter subido em 2008 para enfrentar uma inflação que não era de demanda. Em segundo lugar, só fomos reduzir a taxa a partir de janeiro.

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