Dois homens... e uma nova agenda Guido Mantega se reúne com o chefe do Tesouro americano, Timothy Geithner, para traçar o rumo do pós-crise. Ele envolve mais gastos públicos e a valorização do papel das economias emergentes
Denize Bacoccina

TIMOTHY GEITHNER
Desafio maior do secretário é reequilibrar as contas depois do socorro aos bancos
GUIDO MANTEGA
Reunião com banqueiros reforçou a percepção de que o Brasil foi um dos países menos atingidos
Foram exatos 45 minutos, na quartafeira de manhã, no prédio vizinho à Casa Branca. Tempo suficiente para que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário de Tesouro americano, Timothy Geithner, trocassem avaliações sobre a crise, seus efeitos em cada país e os próximos passos para sair dela. Os dois concordaram que as medidas anticíclicas para estimular a economia deveriam continuar, embora o pior da crise já tenha ficado para trás.
"Concluímos que é preciso continuar porque ainda não conseguimos resolver todos os problemas causados pela crise", disse o ministro Mantega à DINHEIRO, por telefone (leia entrevista à página seguinte). Geithner ouviu com atenção as explicações de Mantega sobre o que o Brasil fez para sair da crise. Os dois também conversaram sobre a nova arquitetura do sistema financeiro internacional.
Contrariando a tradição americana de liberdade econômica e as expectativas do mercado, Geithner apoia a ideia brasileira de aumentar a regulação do sistema para evitar uma nova crise, com limitação do mercado de futuros e a criação de câmaras de compensação, onde o investidor depositaria uma garantia antes de uma operação.
"Não podemos deixar vulnerabilidades que vão plantar as sementes de crises futuras", disse o secretário americano num discurso no Comitê de Assuntos Financeiros da Câmara dos Deputados americana. Na reunião com Mantega, Geithner disse que vai apoiar a proposta que será levada pelo Brasil à reunião presidencial do G-20, no fim de setembro em Pittsburgh, nos Estados Unidos.
É da reunião do G-20 que deve sair esta nova agenda. Geithner também concordou com a proposta brasileira de reformar a composição acionária do FMI, para aumentar a participação dos emergentes. Embora concordem que o pior da crise já passou e que a ação do Estado como indutor da atividade econômica, deve continuar, Brasil e EUA já pensam no passo seguinte. Geithner lembrou que não se deve contar com os EUA como motor da economia mundial, já que o país precisa diminuir as importações.
"A recuperação não vai ser forte o suficiente para se sustentar a menos que consigamos convencer o povo americano de que precisamos reduzir os déficits quando a retomada estiver firmemente estabelecida", afirmou Geihtner no fim de semana. O PIB do segundo trimestre, divulgado no fim de julho, já mostra os primeiros sinais dessa mudança. A recessão perdeu o ritmo - de uma queda anualizada de 6% para uma queda de 1% - com a redução do consumo das famílias, apesar do aumento da renda disponível.
Um sinal de que o padrão de consumo via endividamento, que sustentou o crescimento nos anos anteriores à crise, pode ter chegado ao fim. Os gastos do governo continuaram em alta e as exportações já mostraram queda menor do que as importações. No novo padrão, os países mais beneficiados são os que têm grandes mercados domésticos, como Brasil, China e Índia. Mas há limites ao comércio internacional, que deve recuar 10% este ano.
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FOCO NO G-20 Mantega e Geithner dizem que o G-20 é o foro adequado para propor o novo desenho financeiro
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