Uma cadeira e dois riscos A hipótese de uma eleição presidencial polarizada entre José Serra e Dilma Rousseff é vista com receio por parte do mercado financeiro. E os juros futuros já estão subindo
GUSTAVO GANTOIS

DILMA ROUSSEFF Excesso de gastos públicos seria, na visão de agentes do mercado, ameaça à estabilidade
JOSÉ SERRA Críticas à política monetária e ao regime de câmbio despertam desconfianças
Por meses a fio, a taxa básica de juros foi alvo de toda sorte de críticas e ataques. Empresários, trabalhadores, economistas e políticos vociferavam pela queda daquela que é considerada a raiz de todos os males da economia brasileira. Pois ela caiu. Encontra-se, hoje, no menor piso histórico, marcando 8,75% ao ano.
E não haveria nada no horizonte próximo que indicasse a volta do dragão inflacionário. Apesar da calmaria na economia e da estabilidade assegurada, boa parte dos analistas acredita que o Comitê de Política Econômica será obrigado a aumentar os juros em 2010. Os últimos boletins semanais do Focus, que congrega as apostas dos 100 maiores bancos e fundos brasileiros, indicam alta de até quatro pontos percentuais.
Se confirmado esse cenário, a Selic voltará para 12,75% ao ano. Mas, se não há pressões inflacionárias, o que poderia amedrontar os analistas? "Os investidores já estão precificando os riscos políticos da eleição de 2010", afirma José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos. "Temos de lembrar que os dois principais candidatos à sucessão de Lula deixam dúvidas quanto ao que farão na economia."
Assim como ocorreu com o então candidato Lula, em 2002, o terrorismo econômico voltou a assombrar a banca. A 14 meses da eleição, o governador José Serra e a ministra Dilma Rousseff viraram itens obrigatórios no que o mercado chama de precificação de candidatura. Por isso, os analistas buscam levantar informações sobre as opiniões de cada um e montam cenários que, se não assustam, também não são muito animadores.
Já em campanha, Serra aproveitou a semana passada para ir a Exu (PE), berço de Luiz Gonzaga, para tentar se mostrar palatável aos eleitores nordestinos. Enquanto isso, as consultorias econômicas lançavam relatórios definindo o seu perfil centralizador e heterodoxo como ameaçador da política monetária. Serra, dizem os críticos, seria não apenas o presidente, mas o ministro da Fazenda e o chefe do Banco Central do seu eventual governo.
Ele nunca escondeu sua insatisfação quanto à Selic, criticando até mesmo os atuais 8,75%. O tucano também cobra o fim do mecanismo de câmbio livre, exigindo um dólar mais alto. "Isso tudo, no entender do mercado, significa aceitar uma inflação maior", resume Tomás Goulart, do Banco Modal. E até mesmo do governo já partem alguns alertas. "Tem gente em São Paulo que não inspira muita segurança", disse Henrique Meirelles, num seminário recente.
Para o bem ou para o mal, o receio também se mostra contra Dilma, defensora de um Estado mais forte. A bolsa de apostas acredita que, caso seja eleita, a ministra aumentaria os gastos públicos, e o dinheiro para isso sairia de uma redução do superávit primário. O resultado da equação, assim como já visto com Serra, também seria mais inflação.
O último relatório do Fundo Monetário Internacional elogiou a política fiscal do governo, mas fez sérias críticas aos gastos correntes da máquina pública e à alta dívida pública. Números do Tesouro Nacional mostram que, no primeiro semestre do ano passado as receitas cresciam a 16,7% e as despesas a 9,7%. Já no mesmo período de 2009, a arrecadação caiu 1,1%, mas os gastos subiram 17,1%.
"Esse movimento é inflacionário e é isso que os mercados estão embutindo nas taxas futuras de juros", atesta Carlos Thadeu Filho, economista-chefe da SLW. Verdade ou não, este é aquele momento especial em que os apostadores investem pesado em busca de um retorno fácil. Quando o dólar e os juros explodiram em 2002, muita gente fez fortuna.
A realidade agora é outra. Com fundamentos muito mais sólidos, a começar por reservas de US $ 210 bilhões, fica muito mais difícil especular sobre o cenário eleitoral. Ainda assim, é curioso notar que a política econômica, um dos pontos fortes do governo Lula, ainda não tenha encontrado um candidato que a defenda abertamente.
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