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Eu sou o senhor do castelo
O operador americano Andrew Hall, dono de uma propriedade na Alemanha somente para suas obras de arte, briga para receber um bônus de US$ 100 milhões do Citigroup. Conseguirá?

Ana Clara Costa

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Andrew hall já recebeu US$ 125 milhões de bônus em 2005
Kenneth Feinberg:
o responsável pelas contas do Tesouro decidirá o futuro do bônus de US$ 100 milhões

Na última semana, um britânico pacato de 58 anos provocou agitação nas salas de Wall Street. Gestor da Phibro LLC, braço de investimentos em contratos de petróleo do Citigroup, Andrew Hall aguarda a chegada em sua conta-corrente de um montante de US$ 100 milhões. A saborosa quantia é um bônus referente aos resultados obtidos pela Phibro em 2008. Apesar de alto, o valor não é ilegal nem o primeiro em sua carreira. Em 2005, Hall recebeu US$ 125 milhões. A diferença é que agora o Citigroup não é mais o mesmo.

Depois de ser resgatado da crise com um aporte de US$ 45 bilhões do governo americano, que ficou com 34% de seu capital, o Citi perdeu a autonomia dos tempos em que era apenas tão-somente um banco privado. O presidente do Citi, Vikran Pandit, precisará do aval criterioso de Kenneth Feinberg, que cuida das contas do Tesouro americano, e da bênção de seus acionistas para presentear Hall com o mimo milionário. E eles não parecem propensos a ceder.

A competência do operador é inegável. Em 2003, quando os contratos futuros de petróleo eram negociados a US$ 30 o barril, Hall ficou atento à movimentação da economia chinesa e indiana e apostou em uma considerável alta no preço da commodity nos anos seguintes. No comando da Phibro, comprou simplesmente todos os contratos de petróleo existentes no mercado naquele ano para vendê-los no longo prazo.

Não era apenas uma aposta. Hall antecipou a maneira como o mundo calcularia o petróleo dali para a frente, e fez isso certo. A quantidade de contratos em posse da Phibro fez investidores e gestores culparem Hall pela bolha do preço da commodity, que passou de US$ 145 o barril e perturbou economias no mundo todo. Mas ele não estava muito preocupado. Em 2005, ao receber seu bônus milionário, ele também proporcionou ao Citi nada menos que US$ 800 milhões de lucros.

Nada mal para uma pequena gestora localizada em uma fazenda na cidade de Southport, em Connecticut. A rotina de Hall pouco tem de comum. Para os que o imaginam como um estressado trader que se afoga em canecas de café e relatórios em uma sala qualquer de Manhattan, ele tem uma vida relativamente fora do padrão. Alterna as horas de trabalho na fazenda-sede da Phibro com aulas de balé e a prática de remo. Sua casa fica próxima do trabalho e abriga uma respeitável coleção de arte contemporânea.

Hall e sua esposa, Christine, patrocinam diversos artistas e doam fundos para museus. Também emprestam suas obras para grandes casas como a Tate Modern, em Londres, e o Whitney Museum, em Nova York. Certa vez, Hall comprou uma escultura de concreto de 40 toneladas do artista alemão Anselm Kiefer e colocou-a em seu jardim, sem pedir permissão a ninguém. A vizinhança alegou que o objeto "depreciava a paisagem do local" e ele teve que trocá-la pela escultura de um carro, assinada pelo britânico Julian Opie.

Mas a maior peculiaridade artística do trader milionário é o castelo que adquiriu em 2007 na Alemanha, próximo da cidade de Hannover. Chamado de Schloss Derneburg, a construção de quase mil anos, uma espécie de xanadu das artes, abriga a maior parte da coleção da família. Gastar US$ 100 milhões em obras de arte, caridade ou em uma coleção de remos era uma decisão pertinente a Hall há alguns meses. Mas, agora, com o governo comandando o Citi, o bônus ganhou ares de imoralidade.

A dívida pública dos EUA chega a US$ 11,6 trilhões, alavancada, principalmente, pelos gastos do governo com o resgate de bancos. Quem pagará o dinheiro emprestado ao Citi é o cidadão americano, por meio de impostos. E ele não está nenhum pouco disposto a financiar o agrado. Por consequência, se Hall não receber o que lhe é de direito, tirará a Phibro do guarda-chuva do Citi. E, acredite, a pequena gestora é uma das únicas operações ainda rentáveis do banco americano

 

 


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