A farra do bônus e a meritocracia Por Milton Gamez

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"Se o banco teve prejuízo, onde conseguiu dinheiro para pagar o bônus?", reclama o procurador Andrew Cuomo |
Quem pensava que a farra do dinheiro fácil havia acabado em Wall Street estava enganado. Apesar da crise do sistema bancário, que exigiu a injeção de vários bilhões de dólares em dinheiro público para evitar a quebra sistêmica de instituições, os grandes bancos continuaram a pagar bônus milionários aos seus executivos em 2008.
Os números, apresentados pelo procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, chocaram os americanos na quinta-feira 30 e tendem a causar muita controvérsia nos Estados Unidos nos próximos meses. Um conjunto de nove bancos que receberam socorro do governo pagou US$ 32,6 bilhões em bônus, apesar de registrarem prejuízo de US$ 81 bilhões em suas atividades. Cerca de cinco mil operadores e executivos dessas instituições receberam mais de US$ 1 milhão de remuneração adicional ao salário.
No Citigroup, que saiu da crise tendo o governo como maior acionista individual - a fatia no capital chega a US$ 60 bilhões -, os pagamentos extras chegaram a US$ 5,3 bilhões. No Goldman Sachs, 953 felizardos receberam bônus milionários. No Morgan Stanley foram 428 premiados pelo desempenho. Como classificou o presidente Barack Obama em janeiro, quando saíram as primeiras notícias sobre os pagamentos generosos nos bancos quebrados e mantidos em pé com o dinheiro do contribuinte, essa prática é uma "vergonha".
"Se o banco teve prejuízo, onde conseguiu dinheiro para pagar o bônus?", indagou Cuomo, conhecido por combater os excessos das corporações americanas e pelo pulso firme com que combateu a evasão fiscal promovida pelos bancos suíços em seu país. Se Armínio Fraga fosse americano, poderia responder a Cuomo que o dinheiro saiu "do meu, do seu, do nosso bolso". Será? O Congresso americano certamente vai pressionar as autoridades envolvidas nessa questão, pois tem de dar respostas à opinião pública, já que aprovou o pacote de socorro ao sistema bancário. Já são favas contadas o fato de que o sistema financeiro americano será mais vigiado e regulado após a crise.
O escândalo dos bônus levanta uma outra dúvida: até que ponto haverá ingerência na política salarial dos bancos e das empresas? Para alguns críticos, os escândalos corporativos do final do século XX (Enron & cia.) e a recente crise do subprime mostram que a política de remuneração variável de acordo com o desempenho individual é danosa ao sistema como um todo, pois incentiva comportamentos irresponsáveis. Para garantir o bônus no final do ano, os funcionários dos bancos se tornam imprudentes e abrem a guarda para o risco, oferecendo crédito a tomadores duvidosos (os clientes subprime) e criando operações mirabolantes para seduzir os investidores que financiam as bolhas financeiras.
Cada um empurra o problema para a frente em benefício próprio e, quando tudo dá errado, o prejuízo é coletivo. Essa prática é descrita em detalhes por Lawrence G. McDonald, exvice- presidente do banco Lehman Brothers, o pivô da crise mundial, no livro "A Colossal Failure of Common Sense" ("O fracasso colossal do bom senso", em tradução livre), recém-lançado. Em visita a corretores na Califórnia, ele ouviu a seguinte frase: "Nosso trabalho é vender contratos de financiamento habitacional.
Depois, o problema é dos outros." Apesar dos sinais da enorme bolha do subprime, o chefão do Lehman, Dick Fuld, ignorou as advertências que recebeu de seus próprios funcionários. Seu bônus devia ser mais importante. O outro lado dessa moeda tem a ver com a essência do capitalismo americano nas últimas décadas. Os banqueiros argumentam que a política de meritocracia é a mola propulsora dos negócios, a forma correta de pagar bem a quem merece e reter os melhores talentos.
Mudar isso seria um atentado à competitividade não só dos bancos como das empresas. Essa política agressiva foi adotada no Brasil com muito sucesso nos bancos Garantia e Pactual. Não foi por acaso que os ex-donos do Garantia, liderados por Jorge Paulo Lemann, foram tão longe e o banqueiro André Esteves ficou bilionário aos 37 anos no Pactual. O desafio é encontrar o equilíbrio entre o salário justo e a recompensa pelo melhor desempenho.
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