Bolsa
Como cultivar uma carteira verde Investir em empresas que se preocupam com sustentabilidade é uma tendência, mas descobrir quais são elas não é uma missão fácil. Saiba por onde começar
Ana Clara Costa
Os bancos representam 55,8% do ISE e têm políticas de crédito que incentivam empresas sustentáveis
Ao tomar uma decisão de investimento, a primeira ideia que vem à mente de um indivíduo é a de quanto ele poderá ganhar com essa operação. A segunda é em quanto tempo ele ganhará. A terceira é até quando ele deverá permanecer com tal investimento. Até aí, nada de anormal. Afinal, não é crime querer obter o melhor rendimento em uma aplicação financeira. A diferença é que, de uns tempos para cá, o capitalismo egoísta e impiedoso abriu espaço para novas susvariantes muito mais brandas e vistosas aos olhos da sociedade.
Empresas de capital aberto que investem em sustentabilidade empresarial, ambiental e social são cada vez mais observadas pelo mercado e despertam a curiosidade dos investidores. Eles, com razão, querem saber o que há de tão sustentável em tais companhias e por que devem investir nelas. Se fizerem boas escolhas na bolsa, poderão ajudar a mudar o mundo para melhor, imaginam. Será? O economista Adam Smith, em seu A Riqueza das Nações, já dissertava no século XVII sobre isso."Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo."
Investir em companhias cujo impacto ambiental e social é mitigado por ações de sustentabilidade é uma das formas, ainda que egoísta, de amenizar o sentimento de culpa pela progressiva deterioração do planeta, pelas diferenças sociais e pelos demais males que assolam a humanidade. Mas como escolher uma companhia que mereça as suas economias? O Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) é a referência da BM&FBovespa para as empresas consideradas sustentáveis. Foi elaborado pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo e leva em conta parâmetros de liquidez, transparência, governança corporativa e ações ambientais.
Ao todo, é composto por 29 empresas, como Braskem, Natura, Eletropaulo, Cemig, Gerdau e Banco do Brasil. Atualmente, o Itaú Unibanco ocupa a parte majoritária da carteira do índice, compondo 28,6% da carteira. O Bradesco vem em segundo lugar, correspondendo a 22,2%. Juntos, os bancos representam 55,8% da carteira do ISE. O índice acumula 29% de rentabilidade em 2009, abaixo dos 45% do Ibovespa.
Para fazer parte do ISE, a burocracia é grande. É preciso responder a inúmeros questionários e comprovar cada resposta com evidências físicas do que está sendo feito de sustentável em uma empresa. "O mais difícil é a empresa estruturar a maneira de provar para a bolsa o que está sendo feito de sustentável.
Os bancos saem na frente porque têm orçamento maior para investir nisso", avalia Ricardo Almeida, professor de finanças do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Apesar de ser uma ferramenta comparativa útil para os gestores de fundos socialmente responsáveis, o ISE não é uma unanimidade e gera discussões sobre as atividades das empresas que o formam. Até novembro de 2008, a Petrobras constava na carteira do índice.
A gigante brasileira é uma grande incentivadora cultural, adota boas práticas de governança corporativa e investe grandes quantias em obras sociais. Mas como a extração e o refino de petróleo é uma atividade poluente e o combustível não é renovável, o setor é muito criticado pelos ambientalistas. Uma polêmica envolvendo o teor de enxofre no combustível da Petrobras acabou resultando em sua exclusão do ISE. A empresa continua sendo a principal ação no Ibovespa.
Outro exemplo controverso é a VCP, que faz parte do índice e tem uma forte política de reflorestamento. Ao comprar recentemente a Aracruz, a VCP pagou o valor mínimo por ação a seus minoritários, que se queixaram de pouca transparência e governança corporativa ruim. A Embraer também faz parte da carteira sustentável da bolsa. Grande fabricante de aeronaves comerciais, a companhia também fabrica aviões militares.
"É difícil considerar sustentável uma empresa que tenha ganhos expressivos no setor da guerra. Esse setor não é sustentável, assim como o de materiais fósseis e tabaco, por exemplo", explica o economista Roberto Smeraldi, da ONG Amigos da Terra.
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