Motorola pede ajuda Com a participação no mercado de celulares em queda livre, a companhia tenta uma cartada final. Saiba como isso diz respeito ao Brasil
Roberta Namour

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Depois de tanto ler histórias medievais, Dom Quixote, um fidalgo espanhol passou a ter alucinações e a viver como no tempo da cavalaria. Guiado pelo amor de Dulcineia, ele saía pelas ruas enfrentando inimigos imaginários. Mas o que o romance de Miguel de Cervantes tem a ver com a Motorola? "Como aconteceu com Dom Quixote, em qualquer lugar que a Motorola vá, sua reputação a precederá", afirma Richard Kramer, analista da empresa de pesquisa inglesa Arete. A companhia, que em 1983 criou o primeiro celular comercial do mundo, hoje luta para não ser engolida pela concorrência. No setor que inventou, sua participação de mercado caiu de 24% em 2006 para pouco mais de 5% em 2009. Com uma queda de 45% na receita de sua divisão de celular no segundo trimestre, em comparação com o mesmo período de 2008, a Motorola adotou duas estratégias. Numa delas, considerada a última chance de entrar na disputa pelo mundo dos smartphones, apostou na plataforma Android, do Google. Na outra, investiu em novas linhas de produção para manter saudável sua única operação no mundo com crescimento de vendas acima de dois dígitos, a do mercado brasileiro. "Assim como Dom Quixote teve Sancho Pança, a área de celular tem o resto da Motorola para compensar suas perdas", diz Kramer.
Nos últimos 12 meses, a Motorola anunciou a chegada de três novas linhas de produção ao Brasil. No mês passado, começou a fabricar em seu Campus Industrial e Tecnológico de Jaguariúna (interior de São Paulo) soluções de banda larga sem fio. A fabricação local vai atender toda a América Latina. Tratase da oitava linha a entrar em produção na unidade.
Inaugurada em 1996, a fábrica de Jaguariúna recebeu um investimento total de R$ 1 bilhão. Essa fábrica nasceu para ser uma plataforma de produção exclusiva de celular para atender ao mercado interno e externo. Esse objetivo, no entanto, nunca se concretizou inteiramente. Por isso, novos investimentos estão a caminho. "A fábrica passou por um período ruim, mas agora busca investir em novos produtos, como acessórios para o setor automotivo", afirma o vereador Edson Cardoso de Sá, presidente do sindicato dos metalúrgicos de Jaguariúna. De acordo com ele, o faturamento da fábrica da Motorola corresponde a 55% da arrecadação da cidade. "A empresa procurou a prefeitura para falar sobre uma ampliação que pode atrair outras fornecedoras de tecnologia para a região", afirma Gustavo Reis, prefeito de Jaguariúna. Nos últimos dois anos, sob o comando de Enrique Ussher, a operação brasileira tem sido uma exceção na Motorola. Numa lista de oito países feita pela Bloomberg, o Brasil foi o único a apresentar crescimento em vendas acima de dois dígitos no período de 2006 a 2008 - cresceu 12,3%.
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