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O Brasil de longo prazo
Como a menor taxa de juros da história e a expansão do crédito estão mudando as estratégias das empresas e ampliando o mercado de consumo

Hugo Cilo

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fotos: FELIPE BARRA
Uma foto histórica: pela primeira vez no governo Lula, o Copom permitiu o registro da imagem de uma de suas reuniões. No último encontro, a equipe comandada por Henrique Meirelles reduziu a Selic a 8,75% ao ano

Dividendos da estabilidade”. Essa tem sido a expressão mais repetida nos últimos meses pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Significado dela está estampado nos indicadores positivos da economia, na menor taxa de juros da história, na ampliação do crédito e nos mais longos prazos de pagamento de que se têm notícia no País. Para quem viveu a época da hiperinflação e do overnight, quando só era possível comprar à vista, é quase um milagre perceber que já se pode adquirir, com juros relativamente baixos, a casa própria em 30 anos, o carro novo em 84 meses e o caminhão em 96 meses. Na quarta-feira 22, quando o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa básica de juros de 9,25% para 8,75%, o horizonte da economia se alargou ainda mais. E esse novo Brasil, de prazos a perder de vista, tem mudado as estratégias das empresas e ampliado o mercado de consumo.

Antes mesmo da decisão do Banco Central, diversos bancos anunciaram cortes de juros e revisaram suas projeções de crédito. No Bradesco – que recentemente esticou de 25 para 30 anos o prazo dos financiamentos imobiliários, e de 60 para 80 meses o de veículos –, o diretor-executivo Ademir Cossiello revia para cima as perspectivas de financiamentos para o banco neste ano e definia o repasse integral da redução da Selic aos correntistas. “Já é possível projetar um aumento da carteira de crédito. O banco terá que ganhar em volume e, assim, podemos crescer 10% contra 2008 em financiamentos. O que é ótimo, dado o cenário lá fora”, disse ele à DINHEIRO. “Juro alto significa risco maior, e risco maior não é bom para ninguém”, completou.

Essa mesma equação – em que juros menores reduzem os riscos – agradou à cúpula da Mercedes-Benz no Brasil. O diretor nacional de vendas, Gilson Mansur, refez as contas em sua sala na fábrica de são Bernardo do Campo e chegou a uma conclusão animadora. “ No começo do ano, as vendas caíram 19% e achávamos que o cenário continuaria ruim. Agora, podemos apostar em algo semelhante a 2008, que já tinha sido muito bom”. Hoje, é possível financiar um caminhão em até 96 meses, com juros fixos de 0,37% ao mês (4,5% ao ano). “Prazo longo e taxa baixa diluem o peso das prestações e isso, sem dúvida, é o que de melhor pode haver no mercado”, completou.

A expansão do crédito tem gerado dividendos em vários setores da economia. Graças a esse inédito cenário, o assistente de marketing Carlos Eduardo Villar, 25 anos, decidiu, neste ano, financiar um apartamento em Taboão da Serra (SP) e, ao mesmo tempo, comprar um carro popular em 60 meses. O jovem paulistano quis aproveitar a ampla oferta de dinheiro no País para acelerar a construção de seu patrimônio. Antes de sair às compras, comparou os melhores juros em várias instituições para adquirir o automóvel e, no caso do imóvel, optou por um sistema de cooperativa, com taxas mais atraentes do que as praticadas pela maioria dos bancos. “Vou pagar juros em financiamentos longos. Mesmo assim, dado o novo ambiente de euforia no crédito, fiz bons negócios”, disse Villar.

A euforia, naturalmente, tem impulsionado o mercado imobiliário, segmento em que já possível encontrar juros de 5% ao ano e prazo de 360 meses (30 anos), em bancos públicos e privados. O presidente da construtora MRV, Rubens Menin, obteve no primeiro semestre um faturamento de R$ 1,3 bilhão. Em todo o ano passado, as vendas ficaram em R$ 1,5 bilhão. “Com esse novo cenário do crédito, e a trajetória de queda dos juros, chegaremos a R$ 2,9 bilhões, o dobro do ano passado”, disse Menin à DINHEIRO, que teve de contratar 18 mil pessoas. Isso se baseia em números concretos e no exponencial crescimento do mercado de imóveis populares. Com a nova redução da Selic – além do programa Minha Casa Minha vida –, as prestações de um financiamento de R$ 77 mil, por exemplo, pago em 30 anos, caíram de R$ 900, há dois meses, para os atuais R$ 555,80. “nos meus 30 anos no mercado, é uma situação inédita”, completou Menin.

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