Márcio Fortes, ministro das Cidades
"O avião do PAC já vai decolar" Por Luciana de Oliveira

Para o ministro das Cidades, Márcio Fortes, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é como um avião prestes a decolar. Depois de checados os componentes, é chegada a hora de ir para a cabeceira da pista, ligar as turbinas e voar. O roteiro também vale, diz ele, para o PAC da Mobilidade, o que vai cuidar dos investimentos para a Copa de 2014 - embora pouca coisa, de fato, tenha sido feita.
Tudo ainda depende de conversas com representantes das 12 cidades que receberão o evento. Por enquanto, ele ainda nem sabe quanto será gasto. "É preciso pensar na viabilidade dos projetos pós- Copa e nas singularidades de cada cidade", disse o ministro, que não tem a menor intenção de largar o cargo para disputar eleições em 2010.
DINHEIRO - Qual é o valor dos projetos do PAC da Copa, também chamado de PAC da Mobilidade? Há alguma estimativa do quanto deve ser gasto para receber o evento no País?
Márcio Fortes - No início de agosto, vamos sentar com prefeitos e governadores para ver cada um dos projetos e definir parcerias. Vamos definir o que é mais módico, o que é funcional, como vai ser a operação modal depois da Copa, cronogramas, se é iniciativa estruturante, se é articulada com a mobilidade da cidade. Não pode é construir, por exemplo, um estádio novo para uma cidade que não tem tradição futebolística. Depois da Copa, a obra fica às moscas. Não temos nem ideia do quanto vai ser gasto, se vai ter parceria privada ou se será uma iniciativa só pública.
DINHEIRO - Essa discussão deve se limitar aos representantes de cada sede ou tudo será decidido em conjunto?
Fortes - Será como o PAC. Será um de cada vez.
DINHEIRO - O que o PAC da Copa contempla além da infraestrutura de estádios e hotéis para seleções e torcedores?
Fortes - Cuidamos dos acessos às sedes. É preciso pensar em aeroportos, portos e rodovias. Adaptar os aeroportos para o fluxo de passageiros. Se for necessário, inclusive, aumentar o número de pistas. A partir daí, pensar nas várias possibilidades de saída até a cidade e os estádios. Pode ser um BRT, um corredor exclusivo para ônibus articulado, com capacidade para 270 passageiros. Ou um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Tem também metrô ou a via seletiva. Tem que ser estruturante. Que seja usado plenamente pela cidade depois da Copa.
DINHEIRO - Como é levada em consideração a singularidade de cada sede para que os projetos da Copa se viabilizem?
Fortes - Duas cidades - Cuiabá e Manaus - terão um apelo diferenciado, porque estão em meio a dois santuários ecológicos. No caso delas, tenho que pensar na beleza, na arrumação e nas saídas dos turistas para conhecerem um pouco do Pantanal ou da Amazônia. Um aspecto muito importante a ser resolvido é o do saneamento. Em Manaus, por exemplo, temos que disponibilizar água tratada. Começamos a desenvolver uma nova tomada de preços para distribuição de água na cidade. Outro problema são as chuvas, que destroem a pavimentação. No caso de Cuiabá, temos que ver as possibilidades de saída para o Pantanal e para a Chapada dos Guimarães. A palavra saneamento se aplica a todas as sedes. O turista tem que ter água de qualidade. Não pode ter esgoto a céu aberto dando sopa por aí. O esgoto tem que ser coletado e tratado. A praia não pode ser poluída. Pesquisas com turistas indicam que a maior reclamação deles é sobre a exposição de lixo e sujeira.
DINHEIRO - Pelo menos 50% da população não conta com saneamento tratado. O PAC previa investir R$ 30 bilhões em 1,6 mil obras. Mas só 14% foi realmente executado. Quais as dificuldades para superar um dos gargalos para a população e os turistas?
Fortes - O PAC tem desde o início R$ 40 bilhões para saneamento, envolvendo o Orçamento Geral da União, financiamento, operações de mercado e as contrapartidas. Já temos R$ 31,8 bilhões selecionados e R$ 25,9 bilhões contratados. O presidente Lula concluiu o anúncio do PAC em setembro de 2007. A parte de documentação dos municípios e Estados era muito precária. Havia, algumas vezes, somente memória descritiva e projetos básicos. Para projetos mais avançados, era preciso licença ambiental e a regularização fundiária.
Tem também o problema da desapropriação do terreno. Depois, a licitação para a obra, que é de responsabilidade do governo ou da prefeitura. O PAC é como um avião. Os passageiros estão entrando e se acomodando. A equipe da aeronave está fazendo o check-list. Todos trabalham. Não há ninguém parado. De setembro de 2007 para cá, todos trabalham, mas o avião está parado. Logo, não há visibilidade da obra. A torre de controle nos libera para irmos à cabeceira da pista, mas aí surge um problema e não decolamos. Na maioria dos casos do PAC, estamos prestes a decolar.
DINHEIRO - O Nordeste cresceu muito nos últimos anos. A economia e a renda local dispararam. Muita gente saiu da pobreza, mas ao mesmo tempo as favelas surgem com toda força na região. Como evitar uma desorganização urbana semelhante à que acontece no Sul e Sudeste?
Fortes - Temos que corrigir essa situação. Estamos fazendo a urbanização de favelas. Não é só construir casas. Recompomos o meio ambiente, saneamos, pavimentamos as vias, colocamos rede elétrica, esgoto. Enfim, é feito o conjunto. É mudar as condições de vida. Pode fazer construção de novas moradias, melhoria habitacional e viabilizar a mobilidade dentro da favela ou periferia.
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