Financeirização, a palavra proibida Por Jorge Felix

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Os bônus milionários do Goldman Sachs revelam que o mundo financeiro vai retornando às causas da crise |
Duas notícias econômicas, divulgadas nas últimas semanas, causaram indignação, sobretudo entre aqueles que perderam dinheiro com a crise financeira. Uma delas foi o anúncio pelo Goldman Sachs de lucros trimestrais recorde e uma suposta obrigação legal de distribuí-los em forma de generosos bônus aos seus executivos.
A outra foi a descoberta, pelo "The New York Times", de que o mercado de hipotecas nos Estados Unidos assiste as mesmas corretoras fabricantes de empréstimos "subprime" darem um jeitinho de continuar atuando no mesmo ramo e com os mesmos riscos. À primeira vista essas são notícias negativas, mas, talvez, convençam aqueles economistas ainda reticentes a aceitar a tese da "financeirização" de que está aí o epicentro da crise e, provavelmente, sua solução.
Durante os anos de liberalização, desregulamentação e especulação bem-sucedida, o mercado financeiro viveu sua maior hipertrofia e promoveu uma punção de riqueza da economia real num nível muito superior ao que ela, na realidade, podia dar. Neste período, a palavra "financeirização" estava proibida. "Coisa desses economistas franceses!", diziam os críticos. A rejeição ao termo, claro, era poluída por um tom ideológico.
Afinal, aceitar a "financeirização" era acatar o conceito de "capital fictício", que só está em Karl Marx. A tese de que o mercado financeiro havia extrapolado suas funções dentro do capitalismo e estaria agora prestando um desserviço - em vez de auxilio - ao processo de produção era negada sistematicamente pelos defensores do liberalismo. Mesmo alguns economistas keynesianos, agora tão em moda, eram cautelosos em aceitar esta tese.
Pois bem, esse pode ser o lado positivo daquelas notícias aparentemente negativas. Em uma de suas recentes colunas, o prêmio Nobel Paul Krugman escreve: "Na geração passada, a economia americana foi 'financeirizada'. As atividades que consistem em movimentar, fatiar, picar e reembalar operações de crédito adquiriram uma extraordinária importância em comparação com a produção concreta de coisas úteis."
Mesmo em se tratando de Krugman, é uma mudança e tanto no entendimento teórico da crise. Aos poucos, descobrese que a economia, no século XXI, está viciada na "financeirização" e terá dificuldades para funcionar de outra forma. Mas, de novo, há um problema. Na onda da negação da tese, as faculdades de economia - exceção às poucas heterodoxas que sobraram no mundo - abandonaram o ensino desta teoria (Marx ou Keynes nem sequer são lidos em muitas graduações), em benefício do aprendizado de modelos matemáticos do equilíbrio geral.
Até a revista "The Economist" constatou isso em sua recente reportagem de capa. Ou seja, em meio à tímida retomada, o mundo financeiro vai retornando às causas da crise pelo simples fato de ainda não conseguir - ou não querer - entendê-la por completo.
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