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Moedas paralelas
Há, no Brasil, dezenas de meios de pagamento alternativos, criados por bancos comunitários, movimentando o consumo popular

Hugo Cilo e Luciana de Oliveira

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fotos: Julia Moraes/ ag. istoé

fotos: Julia Moraes/ ag. istoé
" Ninguém mais passa sufoco. Quando o salário acabar, basta procurar o banco e sacar alguns apuanãs"
maria hilda dos santos pires, gerente do banco apuanã

Os 20 mil moradores do Jardim Apuanã, periferia da zona norte de São Paulo, não convivem com transporte público de qualidade, infraestrutura adequada ou segurança. A renda familiar é de três salários mínimos, menos da metade da média mensal das famílias paulistanas. É um bairro carente e enfrenta todos os problemas típicos de outros lugares no País com esse perfil socioeconômico. Mas existe ali uma peculiaridade, que deverá fazer toda a diferença para a economia daquela região.
Meses atrás, a comunidade inaugurou um banco próprio e, desde a semana passada, também há uma moeda local, que circula em paralelo ao real. Ambos levam o nome do bairro.

À primeira vista, a ideia despertou dúvidas. Afinal, o que muda com uma nova moeda em circulação? Na ponta do lápis, a resposta está no aumento do poder de compra. Um apuanã vale, em tese, um real. Mas, na prática, poderá valer mais que o real. Isso porque um acordo dos comerciantes locais com o Banco Apuanã - instituição que pertence à comunidade, mas é mantida com recursos do Instituto Palmas e do governo federal - permitirá descontos de 5% a 20% para quem utilizar a moeda local. "Ninguém mais passa sufoco. Quando o salário acabar, basta procurar o banco para solicitar empréstimo de até 200 apuanãs. Dá para comer, comprar o gás, pagar as contas", detalhou Maria Hilda dos Santos Pires, gerente do banco e moradora do maior conjunto habitacional do bairro. "Assim, ninguém deixa de comprar, o comércio não deixa de vender", completou ela, ao destacar que não há avaliação rigorosa de crédito. Estes empréstimos valem por 90 dias, não embutem juros e, em caso de atraso, a dívida pode ser renegociada sem custos extras.

O modelo de economia social lançado no Jardim Apuanã começa a ganhar popularidade em diversas áreas carentes de todo o País. Só na capital paulista, além do apuanã, existem outras três moedas sociais: vista linda (Jardim Donária, na zona oeste), autogestão (Jardim São Luiz, na zona sul) e Paulo Freire (Inácio Monteiro, na zona leste).

Em várias regiões do País, o conceito de moeda social já está bem difundido. O Banco Palmas, que fica no Ceará, é o precursor dos bancos comunitários no Brasil e completou uma década no ano passado. Junto com o real, por lá circulam as moedas "sabia" e "serra". No Espírito Santo, há "terras" e "bens". Segundo a Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, existem hoje 45 moedas paralelas em circulação no Brasil. A proposta não é substituir o real. Antes de colocar em circulação uma nova moeda, um banco comunitário precisa ter lastro em moeda oficial, no caso o real.

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