A receita que não deu certo A desoneração tributária foi boa para as empresas. Mas custou o emprego da secretária da Receita, Lina Maria Vieira, que, em entrevista à DINHEIRO, eximiu-se de culpa pela queda da arrecadação
Por Denize Bacoccina

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Emoção na despedida: numa carta destinada aos funcionários da Receita Federal, Lina disse que todos são "insubstituíveis". Exceto ela
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Na segunda-feira 13, quatro dias depois de ter sido demitida pelo ministro Guido Mantega, Lina Maria Vieira ainda exercia o cargo de secretária da Receita Federal, mas já não despachava em sua ampla sala no sexto andar do prédio do Ministério da Fazenda. No fim da tarde, com maquiagem impecável e aparentando calma, ela recebeu a reportagem da DINHEIRO numa pequena antessala - enquanto seus livros e objetos pessoais eram encaixotados ali ao lado.
Lina confirmou que havia sido demitida pelo ministro, mas disse que manteve o compromisso assumido com ele de não revelar o fato a ninguém. Mesmo seus assessores mais próximos só souberam pela imprensa. Sobre os motivos, nega que tenha sido pela queda na arrecadação, de 6,3% no primeiro semestre. "Foi uma escolha do governo reduzir impostos e sacrificar a arrecadação para preservar o crescimento e o emprego", disse ela, com exclusividade à DINHEIRO. Por que então? "Isso você tem que perguntar ao ministro, não a mim", afirmou.
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Entre os possíveis sucessores estão o ex-ministro Nelson Machado (esq.) e o atual chefe do Tesouro, Arno Augustín (dir.) |
A conversa sobre os resultados da gestão é interrompida pela entrega de cópias de e-mails enviados por servidores. "Olha que lindo. Uma graça este e-mail", diz, mostrando um enviado por um auditor. Outro foi mandado pelos filhos, Rodrigo, o conhecido comediante potiguar Mução, Bruno e Renata. "Saiba que para nós o cargo mais importante que você ocupa é o de mãe, e esse cargo é vitalício", diz um trecho.
Lina foi comunicada da demissão na quintafeira 9, mas até a quinta-feira 16, a exoneração não havia sido publicada no Diário Oficial. Mantega sugeriu que o decreto poderia dizer que a exoneração se deu "a pedido". Lina negou. A confirmação pública veio através de uma nota do Ministério da Fazenda, elogiando o trabalho de Lina e afirmando que as diretrizes adotadas nos últimos meses serão mantidas.
O cargo foi ocupado interinamente pelo secretário-adjunto Otacílio Dantas Cartaxo, indicado por Lina. Foi uma tentativa de apaziguar a rebelião que já se armava dentro da Receita. Oito dos dez superintendentes regionais ameaçavam deixar o cargo junto com a secretária se houvesse mudança na linha de trabalho implantada por Lina.
Ela diz que mudou o foco da fiscalização dos pequenos contribuintes para os grandes, especialmente indústrias e o setor financeiro. A montadora Ford e o banco Santander teriam recebido multas bilionárias da Receita. Numa reunião em Brasília na terça-feira, os administradores ouviram de Lina que continuassem tocando o trabalho. Em algumas regiões, como o Rio Grande do Sul, delegados e inspetores também ameaçavam deixar os cargos. Recebidos por Mantega na quarta-feira, os superintendentes concordaram em ficar.
"Não cabe a nós, subordinados, perguntar o porquê da mudança, mas o ministro disse que o projeto da Receita é dele e que vai continuar", disse à DINHEIRO o superintendente da 8ª Região, de São Paulo, Luiz Sérgio Fonseca Soares. Lina enviou uma carta aos 30 mil funcionários da Receita se despedindo e dizendo que a exoneração foi "ato corriqueiro".
Auxiliares de Mantega passaram a semana negando que a mudança tivesse qualquer relação com a queda da arrecadação - já esperada, dada a desoneração de R$ 13 bilhões no primeiro semestre e a queda da atividade econômica - ou com a investigação na Petrobras por ter mudado seu sistema tributário em maio.
O presidente Lula estava descontente com a atuação da secretária, especialmente com a exposição pública da Petrobras, que acabou dando gás à CPI do Senado. Mas a maneira desastrada com que conduziu o processo de substituição, ao demitir Lina antes de definir seu sucessor, também desgastou Mantega.
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