Anuncie
Assine Três
 
  IstoÉ Dinheiro
 
Artigo
Imprimir
 
O discutível legado de McNamara
Por José Sergio Osse

comente a matéria

apphoto/ford motor company
Extremo de dois mundos:McNamara no Vietnã (à esq.) e com Henry Ford II (à dir.)

A atuação do ex-presidente da Ford como secretário dos EUA mostrou os efeitos nocivos de um idealismo cego - uma herança da qual o mundo ainda não se livrou

Nos EUA não é incomum que executivos brilhantes do setor privado sejam seduzidos pela promessa de influência e poder oferecida por altos cargos no governo do país.

Embora no Brasil isso pareça impróprio, nos EUA há o ditado de que entre a academia, o setor privado e o poder público, há uma porta giratória: ao sair de um, o bom profissional naturalmente cairá num dos outros. Mas, por mais brilhante que seja o executivo, não há garantias de que terá sucesso no governo ou mesmo que fará o que é melhor para o país. Robert Strange McNamara, morto na segunda-feira 6, aos 93 anos, é um exemplo disso.

Considerado um dos americanos mais inteligentes do século XX, ele deixou uma carreira de extremo sucesso na Ford Motors para ocupar, em 1961, o posto de secretário de Defesa dos EUA, sob a tutela do recém-eleito John F. Kennedy. Ao sair da Ford, McNamara era o presidente da companhia, o primeiro a não ostentar o nome do fundador, e um dos principais responsáveis pela recuperação da empresa.

Aplicando técnicas de análise aprendidas durante a Segunda Guerra Mundial, criou carros de sucesso e cancelou modelos fracassados. Sua ascensão foi rápida, e teve a bênção de Henry Ford II, neto do fundador da empresa. Poucas semanas após assumir a presidência, foi chamado por Kennedy. McNamara era um homem de seu tempo, forjado no ambiente da guerra fria e da era de ouro do capitalismo americano.

Acreditava realmente na superioridade dos EUA e do capitalismo e na necessidade de assegurar os interesses de seu país. Seu idealismo era, porém, cego e impediu que visse quão vazia era a "teoria do dominó", utilizada como justificativa para a guerra no Vietnã. Desde o início do governo Kennedy, McNamara ajudou a arquitetar o envolvimento americano no conflito. Segundo a teoria abraçada por ele, se um país caísse sob jugo comunista, desencadearia um efeito dominó que levaria junto seus vizinhos.

Para ele, era preciso evitar isso, envolvendo cada vez mais os EUA em um assunto que não lhes dizia respeito. O resultado do idealismo cego de McNamara, que não pesou consequências enquanto esteve à frente das forças militares do país, foi uma guerra desproporcional, cruel e sem sentido, que ceifou as vidas de mais de 400 mil americanos e três milhões de vietnamitas.

Em 1976, os EUA foram finalmente derrotados e obrigados a abandonar o país às pressas, humilhados. Nenhum país vizinho se tornou comunista por causa da queda do Vietnã do Sul. No fim da vida, McNamara afirmou que mesmo quando era secretário de Defesa já tinha suas dúvidas quanto à guerra no Vietnã, que acreditava ter sido um erro.

Esse teria sido um dos motivos pelos quais deixou o governo. Por discordar do presidente Lyndon Johnson sobre a necessidade de aumentar o número de tropas na guerra, foi demitido e colocado na presidência do Banco Mundial. Lá atuou para reduzir a pobreza no mundo e, diria mais tarde, purgar parte de seus pecados no Vietnã.

Seu legado, porém, já estava estabelecido e lançou os alicerces para novos atos semelhantes de outros executivos transformados em servidores públicos. Há seis anos os EUA invadiram o Iraque, alegando que o país tinha arsenais de armas de destruição em massa. As "evidências" desses arsenais, que depois se provaram simplesmente "mentiras", foram apresentadas pelo grupo dos "falcões" do presidente George W. Bush.

O grupo era encabeçado por Dick Cheney, vice-presidente dos EUA e ex-executivo da indústria do petróleo, a qual tinha enorme interesse nas reservas iraquianas. Se no tempo de McNamara atos impensáveis eram motivados por ideologia cega, hoje são causados também pela ganância desmedida de executivos que querem colocar a seu serviço todo o poder oferecido pelos cargos de alto escalão do governo dos EUA.

 

 


Edição Digital
Boletim
Gratuitamente,
receba as últimas
notícias e conteúdo
exclusivo do site.


Artigo
Imprimir
   


Busca:
Sites Editora Três

Seções
Capa | Dinheiro Investidor | Dinheiro na Semana | E-commerce | Economia | Entrevista | Estilo | Finanças | Horóscopo | Negócios | Reportagens | Especial | Artigo
Serviços
Fale Conosco | ISTOÉ Dinheiro Digital | Expediente | Anuncie | Assine
Revistas TRÊS
IstoÉ | IstoÉ Dinheiro | IstoÉ Gente | Motorshow | Planeta | Dinheiro Rural | Go Outside | Menu

Gerenciamento de Conteúdo / CMS - ContentStuff.com