Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento
"Vamos ter de agir contra a Argentina" Por Denize Bacoccina e Luciana de Oliveira

O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, está eufórico com os resultados da redução do IPI sobre os veículos, linha branca e outros produtos e acha que uma redução permanente dos impostos deve ser tratada na discussão da reforma tributária no Congresso Nacional.
Se no mercado interno os números são bem animadores, o mesmo não pode ser dito da questão externa - especialmente a relação bilateral com a Argentina, um dos principais parceiros comerciais do País. Miguel Jorge defende uma reação dura do governo brasileiro às medidas protecionistas tomadas pelo governo de Cristina Kirchner.
"Temos que tomar alguma medida. Tem que ter uma medida de repressão. Não vamos aceitar", disse ele em entrevista à DINHEIRO. Leia a seguir os principais trechos.
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"É mais fácil vender no Oriente Médio ou na África do que em Londres ou Paris"
Lula, em missão comercial na África, com Muamar Khadafi
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DINHEIRO - A balança comercial manteve o superávit no primeiro semestre, mas com queda na importação. Sinal de um mercado interno ruim. Já a exportação teve um desempenho um pouco melhor. Qual é o cenário para os próximos meses?
Jorge - Não acredito que vá dobrar o superávit. Até porque, se a economia começa a retomar, há um aumento também da importação. Uma boa parte da redução da importação aconteceu por causa da diminuição de compra de máquinas, equipamentos e insumos. Isso ocorreu porque caiu a atividade econômica interna.
DINHEIRO - O que o governo pretende fazer em relação ao real forte?
Jorge - Não posso falar isso em público porque fica todo mundo bravo. Mas o dólar passou dos R$ 2,40 para R$ 1,90 no passado e as exportações continuaram aumentando. Este ano elas caíram, mas já começam a se recuperar um pouco. As exportações de manufaturados caíram muito, mas estão concentradas em poucos setores, como metalmecânico, siderúrgico, caminhões, automobilístico. A venda de caminhões chegou a cair 50% porque eles eram muito exportados para as matrizes na Europa. Isso só vai mudar se a Europa se recuperar.
DINHEIRO - Vai ser em 2010 ou em 2011?
Jorge - Nos EUA é mais provável que seja em 2010, mas não vejo isso na Europa. Os países europeus são muito mais maduros, por isso têm um consumo menor. Num mercado maduro como o da França, Alemanha e Inglaterra, todo mundo tem DVD, televisão, forno de microondas e forno elétrico. Ninguém vai trocar um forno porque teve redução de imposto. No Brasil, há uma enorme quantidade de gente que começou a entrar no mercado de consumo que não tinha televisão, liquidificador, forno ou máquina de lavar roupa. É gente que está comprando sua primeira máquina. Na Europa não há uma casa sem energia. Aqui nós tínhamos três milhões de casas sem energia. Veio o "Luz para Todos" e trouxe esses novos consumidores.
DINHEIRO - Como será o Eximbank brasileiro e quando sai?
Jorge - Estamos trabalhando ainda na sua formatação.
DINHEIRO - O que muda? Em que medida vai ajudar as exportações?
Jorge - É importante porque ele vai reunir ações que estão hoje dispersas. A diferença é que vamos trabalhar para ter mais orçamento. Será uma subsidiária do BNDES, que vai poder financiar vendas para o Exterior, o que hoje não é permitido. A ideia do Eximbank surgiu no Congresso. Mas não é nova. Tem 20 anos. Quando eu estava na Volkswagen já se falava nisso. Naquela época existiam poucas empresas exportadoras. A maioria, multinacionais. Mas foi aumentando. Por que o empresário brasileiro não tem a tradição de exportar? Porque durante muito tempo houve proibição das importações e um enorme mercado interno blindado. Por isso nós não criamos e disseminamos uma cultura exportadora.
DINHEIRO - Em geral são grandes empresas. Há alguma expectativa de o governo ampliar esse campo para pequenas e médias empresas?
Jorge - Com a crise, ficamos um pouco atrapalhados. Mas, entre os quatro objetivos estratégicos da nossa política industrial, está previsto aumentar em 10% o número de pequenas e médias empresas exportadoras.
DINHEIRO - O sr. tem participado de muitas missões comerciais. Elas têm dado resultado?
Jorge - São mercados pequenos, mas juntos formam um mercado grande. Líbia, Marrocos, Tunísia e Argélia formam juntos um pedacinho do Brasil. É como pegar o Sudeste ou Sul do Brasil. Você não só consegue uma venda direta dos produtos, mas também a venda da ideia de um país importante para investimento. Por exemplo, um mês depois da nossa visita aos países do Magreb, esteve no Brasil o vice-primeiro-ministro da Líbia. Ele assinou um memorando para o investimento de US$ 500 milhões em agrobusiness no sul da Bahia. Há construtoras brasileiras que vão assinar novos contratos a partir dessa visita. É difícil saber quanto as empresas privadas venderam e para quem elas venderam. São dados muitos esparsos. Por exemplo, estivemos em uma missão na Venezuela no final de 2007. Levamos muitas empresas médias. Uma delas, que comercializa leite e na época não exportava, passou a vender para a Venezuela e no ano passado exportou US$ 200 milhões para o país. Na nossa última missão na África, várias empresas venderam muito.
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