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O fim de uma era
Último pregão viva-voz da BM&F acaba com uma tradição centenária. Vai-se o charme dos gritos e do empurra-empurra da bolsa, fica a eficiência dos computadores

Por Milton Gamez

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Fotografado para a DINHEIRO por Alexandre Battibug
Salão vazio: é sexta-feira, 26 de junho, e não há mais negócios ao vivo na BM&F. Operadores preparam-se para o fim de sua profissão, marcado para a terça-feira 30

SILÊNCIO FINAL:
os últimos dias do pregão foram arrastados, sem nada para fazer a não ser lamentar o passado que se foi. Valtinho "Cara de Vaca" (de camisa rosa e gravata desamarrada) é um dos demitidos

Compro 10 a 20! - berrou o operador Juliano Pandolfo, da SLW Corretora, esticando o braço direito e trazendo a mão em direção ao peito, olho no olho com o colega Ivo Francisco de Sena, da Bradesco Corretora. Pandolfo comprou dez contratos de futuro de Índice Bovespa, com vencimento em agosto, a 52.020 pontos.

Eram 17h14 da terça-feira 30, quando seu grito ecoou pela derradeira vez no pregão viva-voz da BM&F. Outro operador, brincalhão, apregoou uma ordem absurda. "Vai tomar banho! Vai tomar banho!", responderam em coro os colegas em torno do cercado de alumínio, no canto esquerdo do salão.

A cena marcou o fim da roda de negociação da bolsa e enterrou para sempre uma tradição centenária, o encontro diário de operadores no centro velho de São Paulo para, a plenos pulmões, executarem as ordens de compra e venda de ativos disparadas por investidores de qualquer lugar do mundo - até da esquina.

A partir de agora, não tem mais brincadeira no pregão. Não tem mais confusão. Para Pandolfo, não tem mais profissão. - O que vai fazer agora? - pergunto ao ex-operador de pregão da SLW. Ele acaba de receber uma placa comemorativa de algo impossível de celebrar, o último negócio ao vivo na BM&F. No metal gravado, palavras, palavras, palavras e um boleto de papel que nunca será preenchido. - Não sei. Fui demitido.

Com os olhos úmidos e um nó na garganta, ele conta que tentará a sorte em uma nova atividade, já que não foi aproveitado em outra função pela corretora em que trabalhava. Está cursando economia na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, a Fecap. Vítima dos computadores, os novos donos do pregão da bolsa, Pandolfo busca conhecimento numa instituição fundada no início do século passado por um apaixonado pela tecnologia, o conde Antônio Álvares Penteado.

O empresário foi um dos primeiros a mecanizar as lavouras de café e a substituir os escravos pelos colonos europeus, numa época em que a bolsa de valores paulista era uma adolescente e a de mercadorias nem tinha nascido. Naqueles tempos, os corretores se reuniam em círculos, as corbeilles, e os funcionários da bolsa escreviam as cotações em imensas paredes negras, com giz.

A revolucionária tecnologia do silício só calou a voz dos operadores na Bovespa em 2005, depois de 115 anos. Na jovem BM&F, os computadores levaram 23 anos e meio para prevalecer. Na BM&FBovespa do século XXI, quarta maior bolsa do mundo, toda e qualquer ordem será executada agora somente pelos computadores. Para os investidores, a nova era da bolsa começa com mais eficiência e gastos menores por transação.

No último pregão viva-voz foram fechados apenas sete negócios. Mais velozes e menos sujeitos a erros de execução, os sistemas eletrônicos de compra e venda têm outra vantagem crucial para as corretoras: custam menos que o ser humano. "O fim do pregão viva-voz era inevitável. Não dava mais lucro nem se pagava", diz Manoel Félix Cintra Neto, que presidiu a BM&F até sua fusão com a Bovespa, em maio de 2008. Na estreia da BM&F, em 31 de janeiro de 1986, o computador central travou e o boleto do primeiro negócio foi assinado - de cabeça para baixo - pelo convidado de honra, o governador Franco Montoro.

Na última transação, na terça-feira passada, a desconfiança histórica com os sistemas eletrônicos havia sido totalmente superada e o trabalho dos operadores de pregão, vistos como uma espécie de backup humano pelos dirigentes da bolsa, ficara obsoleto.

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