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Pandemia econômica
Empresas isolam departamentos, param fábricas, cancelam viagens e mostram que o Brasil também pode sofrer grandes prejuízos com o vírus da gripe suína

Hugo Cilo e Luciana Oliveira

charles guerra/agência rbs/agência O globo
O medo e o lucro: em São Gabriel (RS), a prefeitura decretou estado de emergência. No Rio, alunas do colégio Santo Inácio vendiam máscaras aos colegas

comente a matériaO 30º andar do movimentado Edifício Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro, parece abandonado. As 90 pessoas que trabalhavam ali até a semana passada estão em casa, sem data marcada para voltar. Não se trata de demissão em massa ou férias coletivas. Naquele piso funcionava uma empresa de prestação de serviços parceira da mineradora Vale. Assim que a companhia soube, na sexta-feira 19, que um funcionário que havia acabado de retornar de férias da Argentina estava contaminado com o vírus A (H1N1), o da gripe suína, o departamento foi imediatamente fechado. Uma semana depois, o trabalhador já estava medicado e passava bem, mas a virose do pânico permanecia no ar. "Era uma cena de filme de terror. No meio da tarde, as pessoas foram embora com uma fisionomia de medo", descreveu à DINHEIRO um funcionário da Agência Nacional de Aviação Civil, que trabalha no mesmo prédio.

aline massuca/cpdoc jb/futura press

Não era um fato isolado. O Brasil esteve fora da rota da gripe suína até a semana passada, mas havia 452 casos confirmados até a noite da quinta-feira 25. Na última semana, foram registrados 60 diagnósticos do vírus por dia, em média. Sob a ótica econômica, ainda é difícil traduzir o impacto da pandemia em números, mas ao olhar para o México é possível imaginar o estrago. Desde a descoberta do vírus, o país tem perdido US$ 55 milhões por dia, estimou o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que prevê rombo de US$ 3 bilhões em decorrência da gripe. A economia mexicana despencou 8,2% no primeiro trimestre, puxada pela crise financeira e pelo surgimento do vírus, e é esperada uma nova retração de 2,2% para o segundo trimestre.

A perspectiva de pânico e prejuízos se alastrou em diversas empresas brasileiras. A sede da Serasa- Experian em São Paulo dispensou temporariamente 93 empregados e os colocou em observação médica depois que quatro funcionários foram contaminados por um colega de trabalho que visitou o Chile. O diagnóstico da gripe desencadeou uma megaoperação dentro da companhia. Antes mesmo de ser confirmada a contaminação do funcionário, já estava pronto um plano de ação, elaborado na sede da Experian, na Irlanda.

A preocupação motivou a empresa a criar um departamento médico específico, chamado de Comitê Global de Prevenção. Todas as viagens foram suspensas, inclusive a dos executivos, e qualquer espirro suspeito é motivo de uma visita ao ambulatório. No Brasil, a Serasa tem 2,5 mil empregados. Pouco mais de mil deles ficam no prédio da avenida Indianópolis, onde o vírus foi confirmado.

A alguns quilômetros dali, a fábrica da Natura, no município de Cajamar, passou toda a semana com uma movimentação atípica. Duas confirmações e três suspeitas de gripe suína entre os 6 mil funcionários da unidade, - uma criança do berçário também estaria contaminada - foram o estopim para que a empresa dispensasse todos os trabalhadores que atuavam nas mesmas áreas das pessoas gripadas e lançasse uma campanha interna de orientação sobre a doença, seus sintomas e recomendações médicas para todos os colaboradores, prestadores de serviços terceirizados e familiares. "A Natura está monitorando todos os casos de perto e está em contato direto com o Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo", informou a empresa em comunicado. Outras grandes empresas, como Xerox, Honda, Microsoft, Coteminas e Frigorífico Marfrig - todas com operações na Argentina ou no Chile - adotaram medidas preventivas, como suspensão de viagens aos locais de risco, mas não detalharam seus planos internos de ação. "Estamos alertando aos funcionários que evitem viajar aos locais de maior risco. Mas sem criar pânico. Estive na semana passada na Argentina e nos Estados Unidos. Tomei minhas precauções", disse à DINHEIRO o presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva.

samir baptista/ag. istoé

O clima de medo nas empresas ganhou força com a divulgação de uma nota do Ministério da Saúde recomendando que brasileiros evitem viagens à Argentina e ao Chile, países que registraram uma disparada nos casos de gripe suína nas últimas semanas. "Não é uma proibição, é uma recomendação", disse o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Na prática, trata-se de uma medida difícil de ser implementada por se tratar de países que mantêm estreitas relações comerciais com o Brasil. Nos cinco primeiros meses do ano, o comércio entre Brasil e Argentina atingiu US$ 7,8 bilhões. "Não há, por enquanto, nenhum problema entre o Brasil e os demais países da América do Sul motivado pela pandemia. Se houver, deve começar no setor de serviços, especialmente no turismo", disse à DINHEIRO Welber Barral, secretário de comércio exterior do MDIC. No entanto, existe receio de que a recomendação brasileira possa ter vindo tarde demais. Nas férias de julho, esses países são os mais visitados por turistas brasileiros no Exterior, e pedidos de cancelamento podem gerar multas, como tem feito a companhia aérea chilena Lan. E o prejuízo pode ser tão grande quando o medo. No ano passado, 871 mil brasileiros visitaram a Argentina a passeio ou a negócios. Para este ano são esperados mais de 950 mil pessoas, que deixarão lá mais de US$ 320 milhões, de acordo com projeção do departamento de turismo argentino. Diante desses números, o governo daquele país divulgou uma nota para tentar acalmar os turistas e atribuiu o caos aos Estados Unidos. "No México se iniciou uma lamentável campanha, à qual os Estados Unidos deram conotação de pânico. Não é tempo de intolerância, é tempo de responsabilidade", dizia a nota.

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