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Privatizaram o Senado
ROBERTO CASTRO/ag. isto é
Senadores dizem que não foram eleitos para cuidar de contabilidade, mas dos interesses da população. Como se a boa gestão do dinheiro do contribuinte não fosse de interesse público

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As revelações das últimas semanas sobre a rotina do Senado chocam não apenas pela confusão entre o público e o privado, com o uso de recursos públicos para benefício de alguns senadores e funcionários, concursados e comissionados. Choca também a falta de profissionalismo na gestão de uma Casa que emprega 9.800 funcionários e gasta R$ 2,7 bilhões por ano. São 121 funcionários para cada um dos 81 senadores. É claro que nem todos trabalham, como se soube agora. Muitos apenas recebem os salários, nem sequer vivem em Brasília. Quase metade dos funcionários do Senado entrou por indicação política. Outros 3,5 mil são terceirizados. A comissão de servidores criada para analisar as irregularidades na administração da Casa já descobriu que todos os contratos com as empresas que admitem esses funcionários têm irregularidades – empregam parentes, têm preços superfaturados, não prestam o serviço proposto, além de nenhuma delas ter sido contratada por licitação.

É claro que nem todos os 81 senadores participaram ativamente dos desmandos que agora se tornam públicos. Mas os altos representantes do povo que não praticaram os atos ilegais pecam pela negligência. Alguns dizem publicamente que não foram eleitos para cuidar de contabilidade, mas “dos interesses da população”. Como se a boa gestão do dinheiro do contribuinte não fosse do interesse da população. É como o cidadão comum, que não precisa entender de contabilidade, mas tem obrigação de entregar sua declaração de Imposto de Renda todos os anos. Se não souber preencher, tem que contratar alguém para fazê-lo. Da mesma maneira, não se espera que um senador analise pessoalmente todas as contas de seu gabinete, mas que empregue alguém com competência para fazê-lo.

Se o Senado fosse uma empresa, estaria falida. Mas dificilmente um empresário administraria seu patrimônio com tamanho desperdício de recursos, pagando altos salários para funcionários fantasmas. É justamente este o problema. Falta aos homens públicos brasileiros administrar o bem público como se fosse deles. Ocorre justamente o contrário. Muitos usam recursos públicos para benefício pessoal. Ao contrário da corrupção, que acontece na surdina, a privatização da coisa pública se dá às claras. Senadores e funcionários não se envergonham de defender privilégios como horas extras injustificadas e assistência médica vitalícia para ex-senadores e seus dependentes, enquanto os brasileiros comuns morrem na fila dos hospitais. Também é difícil entender por que é preciso contratar uma empresa para intermediar empréstimos consignados dos funcionários com bancos.

As recomendações da Fundação Getulio Vargas, contratada para fazer um levantamento da má-gestão, apontam para soluções simples, mas que nunca tinham sido implementadas: auditoria externa na folha de pagamento, maior controle dos terceirizados e redução do número de diretorias. Mas mesmo as tentativas de arrumar a casa que começaram a partir dos escândalos esbarraram na falta de competência. Depois de divulgar com grande estardalhaço a existência de duas contas com R$ 3,7 bilhões fora da contabilidade geral, o senador encarregado da investigação descobriu que elas são perfeitamente legais, autorizadas pelo TCU. Dos 663 atos secretos descobertos pelos senadores, que ficavam guardados na gaveta a pedido do ex-diretor-geral Agaciel Maia e do exdiretor de recursos humanos João Carlos Zoghbi, apenas um, o que concedia a eles o direito a assistência médica vitalícia, foi cancelado. Os demais, que criam cargos comissionados, aumentam salários de funcionários e verbas de representação, ainda continuam valendo. Pelo menos até que os senadores percebam que limpar a casa não é trabalho de faxineiro, mas obrigação de quem se elege prometendo defender os interesses da população.

 


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