Os frigoríficos entram numa fria A decisão do varejo de vetar carne de regiões desmatadas expõe
a fragilidade de um setor que ainda não se ajustou às exigências do mundo moderno
Hugo Cilo
 |
Carne polêmica: grandes redes de varejo abraçaram a causa ambiental e embargaram a compra de frigoríficos do Pará |
Na terça-feira 16, o Ministério Público Federal distribuiu um comunicado aos 72 maiores compradores de carne do País sugerindo o embargo a 11 frigoríficos do Pará por descumprimento de leis ambientais, desmatamento de áreas amazônicas e ocupação de reservas indígenas. A repercussão foi imediata e devastadora. As três maiores redes de supermercados do País - Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart - anunciaram a suspensão da compra de carne paraense. Em seguida, uma das maiores empresas de artigos esportivos do mundo, a alemã Adidas, ameaçou romper um contrato de compra de couro com o frigorífico Bertin - principal exportador de carnes e derivados do País e a segunda empresa do setor no mundo - e exigiu garantias de boas práticas para manter os negócios. O mesmo fez a grife Tommy Hilfiger e uma dezena de outras empresas internacionais.
Essa foi uma decisão previsível.
Pela atual legislação, produtores rurais na região amazônica devem manter preservada 80% da mata original. A determinação existe há mais de uma década e havia um esforço para se ajustar a isso. A questão principal, no entanto, que foi negligenciada pelos criadores, é a exigência da rastreabilidade dos animais - ou seja, a certificação de que o gado não está em áreas ilegais ou desmatadas. E a ausência dessa garantia foi o estopim para o embargo no Pará e pode respingar em Estados vizinhos, como Rondônia e Mato Grosso.
Com a decisão do veto, o abate no Estado despencou 40% da noite para o dia e tem gerado um prejuízo diário de R$ 4 milhões, segundo o governo do Pará. Com um rebanho de 17,5 milhões de cabeças de gado, a atividade gera anualmente R$ 43,5 milhões em ICMS ao Estado e responde por quase 10% do PIB local. A ofensiva contra os frigoríficos também chegou ao setor financeiro. O Banco Mundial cancelou um contrato de financiamento de US$ 90 milhões com o frigorífico Bertin e exigiu a devolução de uma parcela de US$ 30 milhões já liberada. A empresa paralisou todas as aquisições de bovinos do Pará. Já o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Carnes e Derivados do Pará disse, em comunicado, que teme pelos 29 mil empregos da atividade no Estado. A preocupação faz todo o sentido. A grande maioria dos frigoríficos tem enfrentado problemas financeiros. Marfrig e Bertin estão, inclusive, ensaiando uma fusão, com o apoio do BNDES. Os frigoríficos Arantes, Margen e Independência passam por recuperação judicial.
 |
O episódio da última semana tomou proporções inesperadas e despertou sentimentos opostos no Brasil e no Exterior. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), Roberto Giannetti, afirmou que a ofensiva, embora legítima sob a ótica ambiental, é trágica aos quase 200 mil criadores de gado do Pará e uma bomba à economia do País. "É inaceitável a interferência do Ministério Público na iniciativa privada. Estão agindo contra o País", disse Giannetti. "É uma decisão arbitrária. Propaganda leviana do varejo. Trata-se de um dano moral e econômico irreparável", completou.
Esse dano econômico ficará ainda mais evidente em breve. Na esteira das redes varejistas do País, grandes compradores europeus de carne brasileira anunciaram, na quinta-feira 18, que passarão no próximo mês a exigir certificado de origem da carne, embora nenhum quilo de carne do Pará seja atualmente exportada à União Europeia, segundo a Abiec. "Esse efeito dominó causará grandes estragos", afirmou o secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Pará, Maurílio Monteiro.
Mas o varejo deve apertar ainda mais o cerco à carne paraense. A vice-presidente de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da rede Wal-Mart, Daniela de Fiori, afirma que a companhia manterá a posição de combater o desmatamento. "Esse é um compromisso antigo e o estopim foi a divulgação do estudo do Greenpeace e do comunicado do Ministério Público.
Não haverá compra de quem desmata ou utiliza trabalho escravo", disse. Até a semana passada, 12% da carne comercializada pelo Wal-Mart era comprada de fornecedores do Pará.
Essa batalha também deve gerar problemas ao governo brasileiro. Segundo o Greenpeace, o governo possui US$ 2,65 bilhões em ações de empresas frigoríficas, as mesmas que são acusadas agora de se beneficiarem do gado criado em áreas da Amazônia, destruídas ilegalmente. Entre 2008 e 2009, o Plano Agrícola e Pecuário liberou US$ 41 bilhões em linhas de crédito para aumentar a produção do setor agropecuário naquela região. O estudo mostra ainda que o setor pecuário na Amazônia brasileira responde por 14% do desmatamento global anual. Os três frigoríficos que receberam a maior parte do investimento público foram o Bertin, um dos maiores produtoras de couro do mundo, o JBS Friboi, empresa que controla pelo menos 10% da produção global de carne, e o Marfrig, o quarto maior produtor mundial de carne. O BNDES é dono de 27,5% do Bertin.
Para a Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (Anpbc), a pecuária não precisa ser a vilã da história. A entidade garante que seria possível dobrar a produção brasileira sem derrubar uma árvore. Bastaria aumentar a produtividade. Além, é claro, de passar a respeitar a legislação ambiental e, definitivamente, se enquadrar na nova realidade do comércio mundial. |