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"Vamos surpreender todos de novo"
Por Adriana Mattos

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Foto: Claudio Gatti/ag. istoé - tratamento de imag

Um dia depois de fechar a compra do Ponto Frio, o empresário Abilio Diniz, 72 anos, embarcou em um voo para Paris. Lá, encontrou seus sócios da rede francesa Casino e, a seguir, partiu para um esperado descanso na Europa. Antes disso, Abilio falou com a reportagem da DINHEIRO. Bem-humorado e brincalhão, disse confiar plenamente na virada de resultados do Ponto Frio. Ao mesmo tempo, pede um tempo para os mais pessimistas em relação à empresa e ao País. “No que depender da gente, nós vamos caprichar.”

Dinheiro – Primeiramente, parabéns pela conquista...
Abilio –
Olha, e acho até que mereço os parabéns, viu? Acho que jogamos bem, foi algo difícil, mas conduzimos muito bem.

Dinheiro – Nas últimas aquisições, seus rivais levaram a melhor. O sr. tem dito que aprendeu com esses tropeços. Como?
Abilio –
Perdemos o BomPreço para o Wal-Mart, então tentamos entender onde erramos e tiramos uma  conclusão importante. Não íamos mais “entrar no funil” [deixar a negociação se estender numa competição, muitas vezes, fratricida]. Isso é desgastante para o time e não leva a nada. Depois, com o Atacadão, foi no sentido de dar mais conforto para os vendedores. Erramos ao não fazer isso. Agora, decidimos nos preparar muito bem, nos informar antes o máximo possível sobre a empresa, para fecharmos o preço a ser pago sem riscos de ajustes futuros. Tudo isso dá aos controladores a segurança de que o preço é ‘x’ e não haverá mais mudanças. E estávamos confiantes porque essa companhia [Ponto Frio] passa uma tranquilidade muito grande para nós por conta da questão da governança corporativa. É claro que as melhores pessoas podem cometer erros. Mas é muito pouco provável que exista algo sobre mau procedimento lá dentro. O que quero deixar muito claro aqui é que o erro em não adquirir o Bompreço e o Atacadão foi só nosso, eu assumo totalmente. Tivemos uma equipe de apoio da Estater [consultoria de fusões e aquisições] que foi importantíssima. Perdemos porque eu errei ao comandar o processo.

Dinheiro – O sr. defendia a aquisição do Ponto Frio, apesar da relutância de pessoas do grupo. Foi uma vitória particular?
Abilio –
Não estou atrás de vitórias pessoais. O importante foi o trabalho de equipe feito. Galeazzi é pessoa de extremo bom senso, disposto a ouvir e aprender. Não é questão de convencer a equipe, mas de dialogar com a equipe, porque isso é estratégico. É claro que já estava definido no planejamento a expansão em não alimentos. E foi o que eu fiz. Sei que tenho uma equipe muito mais acostumada a mexer com supermercados e hipermercados, mas também o negócio de eletrônicos não é desconhecido para nós. A equipe pode ter levado um pouco de tempo para visualizar o plano, mas, quando visualizou, todos se engajaram na ideia. Essa vitória abre um novo momento para a empresa iniciado no final de 2007, com a reestruturação do grupo. É a consolidação de uma nova fase.

Dinheiro – O tamanho do salto que a empresa dá agora é proporcional ao tamanho do trabalho que ela terá para reposicionar o Ponto Frio?
Abilio –
Sempre fui de encarar minhas responsabilidades de forma muito tranquila e de assumi-las. Para mim, não muda nada. O meu comprometimento com a companhia e com os acionistas é total. Eu sinto que nós fizemos um negócio excelente. O retorno virá muito mais rápido do que se imaginava.

Dinheiro – Há especialistas mais reticentes em relação à operação do Ponto Frio.
Abilio –
O Claudio [Claudio Galeazzi, presidente da companhia] vai fazer um turnaround na rede muito mais rápido do que as pessoas estão esperando. Eu não vejo dificuldades próximas às do nível que tivemos com a rede Sendas. Elas serão muito menores do que aquelas que enfrentamos com o Sendas. O Sendas era uma empresa que tinha um conjunto de lojas muito desbalanceadas. Existiam pontos espetaculares e outros horríveis, em termos de venda e resultados. Mas, como representavam um ativo ainda importante para a companhia, não se pode ir fechando. Existem as lojas do Leblon e do Largo do Machado que eram realmente muito boas, mas também tínhamos a loja da Baixada Fluminense, que era muito difícil. O Ponto Frio não tem esse desequilíbrio. É claro que há lojas melhores e piores, mas é muito mais linear. Se a gente conseguir fazer com que a companhia ganhe um pouco mais de eficiência, colocamos todas no positivo. Não sei se vai ser fácil, mas não será tão difícil.

Dinheiro – Qual a hipótese de demissões no Ponto Frio com a aquisição e como ficam novas aquisições daqui para a frente?
Abilio –
Se for necessário fechar lojas, nós o faremos. Mas o número será minúsculo, insignificante. Não há demissões previstas, talvez no alto escalão. Quanto às novas aquisições, nada está descartado, continuamos avaliando possibilidades, mas não existe nenhum projeto de uma grande aquisição a curto prazo. 

Dinheiro – É possível fazer uma virada no Ponto Frio em até um ano?
Abilio –
É muito difícil falar em prazo. Mas, se depender do entusiasmo da equipe, será em menos de um ano. Nós separamos as equipes de duas formas. Na primeira, estavam os envolvidos na negociação. No segundo grupo ficaram aqueles que receberam a seguinte mensagem: “Já compramos o Ponto Frio, então trabalhem.” Confiávamos no que estávamos fazendo, então era possível acreditar nisso. Você não pode ficar naquela dúvida: “E se comprar, e se, e se....” É preciso ter um grupo já trabalhando dentro dessa nova visão e, se não der certo, então você diz: “Guarda esse trabalho todo para uma nova chance porque dessa vez não deu certo.” Mas estávamos otimistas. Fizemos toda uma análise prévia superdetalhada do Ponto Frio. Nós avaliamos loja por loja. Tenho um book na minha mesa com informação de cada loja, com mais de 500 páginas. Essa equipe não pode fazer esse trabalho e aí pensar: “Ah, quem sabe a gente compra ou não...”. Isso não existe. Também fiquei muito feliz com a equipe porque não vazou nada. Mantemos tudo dentro de casa. Toda a negociação aconteceu em Nova York. A equipe da Estater [butique de fusões e aquisições] passou a semana retrasada toda nos EUA. Cheguei a ir para lá para falar com Lily apenas em novembro.

Dinheiro – Como foi essa conversa com Lily Safra?
Abilio –
Foi excelente, nos entendemos muito bem. Eu também falei com a Lily por telefone hoje [terça-feira 9 ], e ela está muito feliz, assim como eu. Lily tem um carinho muito especial pelo Ponto Frio e ela disse: “Olha, tomara que o Ponto Frio seja novamente o que foi no passado, quando eu estava bem próxima do negócio.” Eu respondi a ela que não há a menor dúvida de que vai ser. “Nós vamos fazer isso acontecer nem que seja só por você, garanto que vamos fazer”, comentei com ela. Também falei com o presidente Lula no último domingo à noite e a conversa foi ótima. Ele ficou muito contente com a operação.

Dinheiro – Com essa cartada, a possibilidade de o Pão de Açúcar perder a liderança é muito remota. Isso dá tranquilidade ao sr.?
Abilio –
Eu não me preocupo com o primeiro lugar, eu me preocupo com eficiência da operação. É claro que isso, para as quase 80 mil pessoas que trabalham aqui, tem a sua importância. Mas a nossa preocupação está em sermos realmente eficientes, os melhores em operação. O primeiro ou segundo lugar é consequência. Esse negócio de colocação não depende só do trabalho que a gente faça, sabe? Por exemplo, você pega os americanos, endinheirados, se resolverem detonar o dinheiro deles comprando dez redes por US$ 10 bilhões, o que nós vamos fazer? Então, nem sempre depende da gente. Vamos caprichar no que depender de nós.

Dinheiro – O sr. acredita que o pior da crise já passou e, em termos de crescimento, o que espera para esse ano?
Abilio – Em termos relativos, em comparação com outras economias emergentes, o Brasil é um dos países em melhores condições no mundo. Entre os países do Brics [que inclui também Rússia, Índia e China], não há dúvida de que estamos em melhores condições, inclusive para investimento. Mas aí dizem: “A China cresce 7%, 8% neste ano. E o Brasil não deve crescer.” Mas espere um pouco. Vá para a China e tente investir por lá, fazer parcerias, buscar associações. Não é a maior tranquilidade do mundo para se investir. A Rússia está quebrada. É preciso de novo fazer um turnaround para daqui a um tempo voltar a brilhar. A Índia é ainda um país muito fechado e isolado. Então, quem tem maiores condições para receber capital? Sem dúvida é o Brasil.  Por isso essa enxurrada de dólares que faz com que o real se hipervalorize. Aí fica todo mundo caindo de pau em cima do Banco Central, de que não se pode deixar a moeda se valorizar desse jeito. É complicado. Mas eu vejo com muito otimismo, principalmente pelo nível de confiança que esse governo desperta, por aquilo que os fundamentos da economia despertam nos investidores, pela capacidade de recuperação do Brasil. Temos problemas? Temos, é claro. O próprio Gerdau [Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho de Administração da Gerdau] está fechando fábricas. Nesse momento as coisas estão mais difíceis no setor dele. Mas um país com uma democracia madura e saudável, com um governo altamente respeitado, com um presidente que é uma liderança mundial, você só tem que olhar para esse país com otimismo.    

Dinheiro – Agora parece que o sr. viaja para descansar um pouco, certo?
Abilio – Eu vou primeiro trabalhar em Paris e depois vou descansar um pouquinho sim.

 

 


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