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Lágrimas de crocodilo
Por Carlos Sambrana

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A grife francesa Hermès anunciou que criará crocodilos na Austrália para confeccionar artigos com o seu couro. As entidades de proteção aos animais chiaram, mas as clientes esperam anos para comprar uma bolsa de 35 mil euros

Era mais um encontro organizado pela agência de notícias Reuters para discutir os rumos da indústria do luxo em Paris, o berço do bem viver. Ali estavam os comandantes das principais maisons, analisando o cenário econômico e comentando suas perspectivas para o setor.

Mas foi uma declaração despretensiosa de Patrick Thomas, CEO da grife francesa Hermès, que roubou a cena. Sem mais nem menos, ele disse que, diante da escassez de couro de crocodilo para fazer bolsas, a empresa decidiu criar os próprios animais em uma fazenda na Austrália.

"Para produzir uma bolsa são necessários de três a quatro crocodilos",disse Thomas. "E o mundo não está cheio de crocodilos, apenas nas bolsas de valores", brincou o executivo. A declaração de Thomas foi como um galão de gasolina lançado ao fogo.

Ambientalistas do mundo inteiro passaram a atacar a Hermès. "Foi uma decisão desprezível", disse à DINHEIRO Michael McGraw, diretor da People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), a organização não governamental mais feroz que existe quando o assunto é a proteção aos animais. "Estamos estudando lançar uma campanha contra a empresa", explica McGraw com vontade de arrancar o couro dos executivos da Hermès.

A decisão da grife francesa de criar seus próprios animais para o abate deriva de uma questão estritamente racional. Em primeiro lugar, há uma demanda enorme pelos artigos confeccionados com o couro de crocodilo - conhecido por ser mais durável, belo e macio. De acordo com Thomas, existem clientes que esperam anos para ter uma bolsa que, em média, custa 35 mil euros. Portanto, em tempos de recessão, a saída é oferecer o que as clientes procuram.

O que pode parecer apenas um detalhe, espécie de capricho da marca para ter os produtos mais exclusivos, é, na verdade, fundamental para o desempenho da empresa. Basta ver que os artigos em couro representaram 40% do faturamento de 1,76 bilhão de euros em 2008. É tão importante para a companhia que, só neste ano, em plena crise econômica, foram contratados entre 50 e 100 pessoas para trabalhar como artesãos nas linhas de produção da Hermès. Para a Peta, não há desculpas nem explicações.

Em comunicado oficial, a entidade reiterou a sua indignação e afirmou que a Hermès deveria passar a produzir peças com couro artificial, que imitasse o de crocodilo. Não é impossível criar artigos de luxo com esse foco ecológico. A inglesa Stella McCartney, por exemplo, não usa nenhum tipo de pele animal em suas criações e os produtos de sua linha de cosmética possuem fórmulas biodegradáveis.

A Hermès não rebateu as críticas para não polemizar ainda mais o assunto, mas essa hipótese é praticamente descartada. O couro está impregnado no DNA da grife que nasceu em 1837 fazendo selas de montaria para cavalos. Há quem veja na reação da Peta e de outras entidades de proteção aos animais uma boa dose de hipocrisia ou, literalmente, lágrimas de crocodilo. Afinal, não é de hoje que a Hermès e tantas outras grifes vendem bolsas com esse tipo de couro.

Nesse sentido, a criação própria, regulamentada por órgãos governamentais, conta a favor da marca. Isso porque não são animais capturados em seu hábitat, como acontece todos os anos com tubarões, focas e chinchilas. Se é permitido criar gado de corte, por que, então, não haveria de ser no caso dos crocodilos?

 

 


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