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A lição chinesa
Por Denize Bacoccina, de Pequim

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Deveria ser obrigatória, para todo empresário e integrante do alto escalão do governo, uma visita a Pequim. A visão preconceituosa e atrasada que vigora no Brasil sobre a China traz riscos: o brasileiro ainda não se deu conta do tamanho do avanço da economia chinesa nos últimos anos. Com isso, fica mais fácil tratar com desprezo o novo gigante da economia mundial. Muitos ainda se lembram da China dos anos 80, das quinquilharias exportadas nos anos 90, dos salários de US$ 50.

Quem ainda pensa no país de famélicos de Mao Tsé-tung precisa se atualizar - primeiro nas informações, depois no discurso. É conhecido que o país cresceu em média 10% nas últimas três décadas e isso permitiu a mais de 300 milhões de chineses emergir à classe média, que a pobreza rural caiu de 30,7% em 1978 para 1,6% em 2007 e o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia diminuiu de 31,5% em 1990 para 10,4% em 2005. Mas é preciso visitar o país para perceber o que significa essa nova massa de consumidores comprando produtos, serviços, viajando, se divertindo, poupando para a velhice e se ajustando aos padrões de consumo ocidentais.

Shutterstock
A ascensão econômica dos chineses é visível nas ruas de Pequim. Hoje, o que existe é uma cidade moderna, com edifícios eficientes

Para efeito de comparação, basta lembrar o que um crescimento superior a 5% por apenas dois anos consecutivos fez pela economia brasileira. Na China, a renda per capita aumentou de US$ 1,1 mil em 2002 para US$ 2,4 mil em 2007. A ascensão econômica dos chineses é visível nas ruas de Pequim. Quem visitou a cidade pouco antes da Olimpíada viu um canteiro de obras, poluição e poeira por todo lado.

Hoje, o que existe é uma cidade moderna, com edifícios eficientes, consumo inteligente de energia, lâmpadas com células fotovoltaicas, extensa rede de metrô e, surpreendentemente, com uma limpeza impecável. A poeira continua, com a areia que o vento traz do deserto, mas a poluição industrial acabou com o fechamento das fábricas no perímetro urbano. Robustos canteiros de rosas ladeiam os cinco anéis viários que organizam o trânsito ao redor do centro da capital.

O dinamismo da economia doméstica impressiona. Os milhares de restaurantes e lojas de Pequim são frequentados majoritariamente por chineses. À semelhança do Brasil, incrementar o mercado doméstico é a receita dos chineses para enfrentar a crise das exportações. Mas é claro que as mudanças implementadas nos últimos anos não beneficiaram a todos igualmente. Como já previa Deng Xiaoping, alguns enriqueceriam antes dos outros. Nos últimos anos aumentou também a desigualdade entre as áreas urbanas e rurais e entre as faixas de renda, mas ela se deu principalmente com a elevação da renda dos mais ricos, já que a pobreza extrema foi praticamente erradicada.

Se o país avançou imensamente na ascensão econômica de seus habitantes, o mesmo não se deu no plano político. A imprensa é controlada, a internet é censurada. No aniversário de 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial, assunto proibidíssimo, o YouTube está fora do ar. Ainda assim, a televisão estatal não se furta a discutir assuntos desagradáveis, como a crise econômica e suas consequências para a economia chinesa.

A rapidez das mudanças recentes na China impressionou também a comitiva de empresários, assessores e até diplomatas brasileiros que acompanharam a visita do presidente Lula, em maio. Um assessor foi encarregado de escrever um relatório para circular no governo. Será útil para o presidente Lula, que, isolado na residência de hóspedes do governo chinês, abusou do "nós" em seu discurso em Pequim ao falar dos esforços dos dois países para crescer e combater a pobreza. Quem sabe ele se dará conta de que o Brasil começou o processo em vantagem, mas nesta década certamente ficou para trás diante do progresso chinês.

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Deveria ser obrigatória, para todo empresário e integrante do alto escalão do governo, uma visita a Pequim. A visão preconceituosa e atrasada que vigora no Brasil sobre a China traz riscos: o brasileiro ainda não se deu conta do tamanho do avanço da economia chinesa nos últimos anos. Com isso, fica mais fácil tratar com desprezo o novo gigante da economia mundial. Muitos ainda se lembram da China dos anos 80, das quinquilharias exportadas nos anos 90, dos salários de US$ 50.

Quem ainda pensa no país de famélicos de Mao Tsé-tung precisa se atualizar - primeiro nas informações, depois no discurso. É conhecido que o país cresceu em média 10% nas últimas três décadas e isso permitiu a mais de 300 milhões de chineses emergir à classe média, que a pobreza rural caiu de 30,7% em 1978 para 1,6% em 2007 e o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia diminuiu de 31,5% em 1990 para 10,4% em 2005. Mas é preciso visitar o país para perceber o que significa essa nova massa de consumidores comprando produtos, serviços, viajando, se divertindo, poupando para a velhice e se ajustando aos padrões de consumo ocidentais.

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A ascensão econômica dos chineses é visível nas ruas de Pequim. Hoje, o que existe é uma cidade moderna, com edifícios eficientes

Para efeito de comparação, basta lembrar o que um crescimento superior a 5% por apenas dois anos consecutivos fez pela economia brasileira. Na China, a renda per capita aumentou de US$ 1,1 mil em 2002 para US$ 2,4 mil em 2007. A ascensão econômica dos chineses é visível nas ruas de Pequim. Quem visitou a cidade pouco antes da Olimpíada viu um canteiro de obras, poluição e poeira por todo lado.

Hoje, o que existe é uma cidade moderna, com edifícios eficientes, consumo inteligente de energia, lâmpadas com células fotovoltaicas, extensa rede de metrô e, surpreendentemente, com uma limpeza impecável. A poeira continua, com a areia que o vento traz do deserto, mas a poluição industrial acabou com o fechamento das fábricas no perímetro urbano. Robustos canteiros de rosas ladeiam os cinco anéis viários que organizam o trânsito ao redor do centro da capital.

O dinamismo da economia doméstica impressiona. Os milhares de restaurantes e lojas de Pequim são frequentados majoritariamente por chineses. À semelhança do Brasil, incrementar o mercado doméstico é a receita dos chineses para enfrentar a crise das exportações. Mas é claro que as mudanças implementadas nos últimos anos não beneficiaram a todos igualmente. Como já previa Deng Xiaoping, alguns enriqueceriam antes dos outros. Nos últimos anos aumentou também a desigualdade entre as áreas urbanas e rurais e entre as faixas de renda, mas ela se deu principalmente com a elevação da renda dos mais ricos, já que a pobreza extrema foi praticamente erradicada.

Se o país avançou imensamente na ascensão econômica de seus habitantes, o mesmo não se deu no plano político. A imprensa é controlada, a internet é censurada. No aniversário de 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial, assunto proibidíssimo, o YouTube está fora do ar. Ainda assim, a televisão estatal não se furta a discutir assuntos desagradáveis, como a crise econômica e suas consequências para a economia chinesa.

A rapidez das mudanças recentes na China impressionou também a comitiva de empresários, assessores e até diplomatas brasileiros que acompanharam a visita do presidente Lula, em maio. Um assessor foi encarregado de escrever um relatório para circular no governo. Será útil para o presidente Lula, que, isolado na residência de hóspedes do governo chinês, abusou do "nós" em seu discurso em Pequim ao falar dos esforços dos dois países para crescer e combater a pobreza. Quem sabe ele se dará conta de que o Brasil começou o processo em vantagem, mas nesta década certamente ficou para trás diante do progresso chinês.

 


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