Marcos De Marchi, presidente da Rhodia América Lat
"A reação começou. É hora de aproveitar" Por Hugo Cilo

Quando começou a trabalhar na multinacional francesa Rhodia, uma das maiores companhias globais do setor químico, o jovem estagiário Marcos De Marchi teve de aprender rápido como uma grande empresa deveria se comportar em tempos difíceis. Era o auge da crise mundial do petróleo. Trinta anos depois, na presidência da companhia para a América do Sul, ele vive algo semelhante, mas em proporções muito maiores e com mais responsabilidade nos ombros. No entanto, a postura otimista diante da crise é hoje a mesma da dos anos 70. "Já vimos todo tipo de crise e, desta vez, estamos reagindo mais rápido", disse De Marchi em entrevista à DINHEIRO. Sob o comando dele, a companhia não cortou nenhuma vaga e manteve o vigor financeiro. A seguir, ele explica como isso foi possível.
DINHEIRO - Como o sr. enxerga a atual posição brasileira na crise?
MARCOS DE MARCHI - A crise chegou ao Brasil no quarto trimestre como em outros países. Não ficamos imunes. Foi uma queda muito clara no setor industrial. Isso ficou provado em todos os indicadores de PIB e da indústria. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar, a partir de dezembro, começamos a ver um mês melhor que o outro sucessivamente. Aí está nossa diferença. Essa recuperação não tem sido vista em outros lugares, principalmente nas economias mais industrializadas. Janeiro foi melhor que dezembro, fevereiro melhor do que janeiro.
DINHEIRO - Quais indicadores endossam essa tendência de melhora?
DE MARCHI - Com certeza são os da indústria. É o principal termômetro. Março e abril indicaram uma recuperação, e maio também deve ter sido ainda melhor. Não sei se o pior já passou, não tivemos tempo suficiente para afirmar isso. Só que tenho hoje a impressão de que dezembro foi nosso ponto de mínima, o fundo do poço. Então, temos reagido. O Brasil não foi menos afetado, mas a saída está sendo mais rápida.
DINHEIRO - Por que o Brasil reagiu mais cedo?
DE MARCHI - São vários fatores. Primeiro, nenhum banco brasileiro quebrou. O consumo não foi afetado de forma expressiva. Pelo contrário, as vendas se mantiveram bem. Essa é uma característica peculiar nessa crise, ao comparar o Brasil aos países mais efetados.

DINHEIRO - A Rhodia atua em diversos setores. Qual foi mais afetado?
DE MARCHI - Os mais prejudicados foram aqueles ligados à indústria automobilística. Posso citar o segmento plástico, o de solventes para tintas e o de borracha, este um pouco menos porque é forte em reposição.
DINHEIRO - E qual saiu-se bem?
DE MARCHI - No lado bom da curva, na órbita em que atuamos, as melhores performances estão nas indústrias de filtro de cigarros e têxtil, ambas ligadas ao consumo e que tiveram uma ótima performance.
DINHEIRO - No caso da indústria automotiva, passado o susto, houve uma recuperação, não?
DE MARCHI - Uma coisa é olhar a curva de vendas para o consumidor final. A outra é de produção da indústria automobilística. A indústria química, nosso ramo, é afetada pela oscilação da produção. É verdade que as vendas de automóveis reagiram. No setor produtivo, no entanto, há uma retração de 20% sobre a mesma época do ano passado.
DINHEIRO - Mas como é possível manter o ritmo de vendas sem ajustar a produção?
DE MARCHI - Basicamente, reduzindo estoques. Sabidamente, as empresas se desfizeram de estoques para gerar caixa e se ajustar ao cenário mais crítico. A gente se engana quando olha apenas para o número de vendas ao consumidor. Não é um termômetro confiável. Além disso, as exportações caíram muito. Isso obrigou as montadoras a desacelerar..
DINHEIRO - E as demais regiões?
DE MARCHI - A América do Norte e a Europa ainda não esboçaram uma reação. Algumas notícias positivas surgem, mas são coisas pequenas.
DINHEIRO - A maioria das multinacionais tem feito projeções para o fim da crise. Qual a previsão da Rhodia?
DE MARCHI - Numa crise dessa natureza, é difícil fazer qualquer previsão. A Rhodia tem evitado fazer prognósticos. Mas, pessoalmente, posso acreditar que, se não houver uma nova quebradeira de bancos, e depois de todo o dinheiro injetado pelos governos, a economia mundial tende a ir subindo a partir de agora. Porém, se houver uma nova onda de empresas caindo, a previsão perde a validade.
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