Denúncia
Ouro de tolo Compra de barras do metal precioso em parcelas dá dor de cabeça a investidor. Além de ser uma aplicação pouco recomendada, o risco é não receber o dinheiro de volta
Márcio Kroehn
 |
Maria Aparecida Gonçalves vendeu sonhos, mas não entregou as barrinhas de ouro
|
Um golpe financeiro está agitando o mundo do futebol. Maria Aparecida Gonçalves é uma mulher encantadora. Bem-vestida e exibindo anéis e correntes de ouro, Cida, como prefere ser chamada, seduz clientes interessados em comprar um rendimento atrelado ao metal precioso. O ativo é chamado de Caderneta Ourobraz.
Pode ser parcelado entre 12 e 21 vezes, com pagamento em agências bancárias, com a entrega da barra após o último vencimento. Representante em São Paulo da carioca Ourobraz S/A Comércio Importação e Exportação, Maria Aparecida apresenta outro cartão de visitas para mostrar confiabilidade: é esposa do ex-árbitro José de Assis Aragão, famoso nos anos 70 e 80.
A menção do nome é um chamariz para atrair jogadores e familiares interessados em diversificar seus investimentos. Foi o que aconteceu com Maria Terezinha Ângelo de Souza. Embora não seja Terezinha quem entre em campo todas as quartas-feiras e domingos, ela é a responsável pelos investimentos do irmão, Jenilson Ângelo de Souza, mais conhecido como Júnior, lateral-esquerdo com passagens pelo Palmeiras, São Paulo e atualmente no Atlético-MG.
Ela adquiriu quatro "cadernetas de ouro" que somavam R$ 104 mil. Os pagamentos foram divididos em 13 parcelas de R$ 2 mil para cada uma das apólices assinadas entre abril e julho de 2007. "Gosto de investir em imóveis e previdência, mas quis arriscar com ouro", diz Terezinha.
 |
Maria Terezinha de Souza enxergou uma oportunidade de diversificação. Perdeu R$ 104 MIL e vai buscar seus direitos na justiça
|
O problema é que as barrinhas nunca foram entregues. Foi sua segunda experiência mal sucedida na diversificação de investimentos. Na primeira, com a Fazenda Reunidas Boi Gordo, ela investiu pouco menos de R$ 30 mil e agora está na fila dos credores.
Coincidência ou não, o golpe do ouro parece destinado a um público específico, embora qualquer investidor desatento possa cair na armadilha. Os endereços da Ourobraz na matriz carioca e em São Paulo estão próximos às entidades máximas do futebol. Localizada no número 91 da rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, a Ourobraz ficava a 80 metros da antiga sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que recentemente se mudou para a rua Victor Civita, 66. Em São Paulo, o escritório de Maria Aparecida está no edifício número 799 da rua Federação Paulista de Futebol, a 78 metros da mandatária do futebol paulista. Os jogadores são pouco receptivos para falar de seus investimentos, mas Maria Aparecida tentou, ao menos, convencer alguns atletas do Santos F.C. a comprar a "caderneta de ouro". DINHEIRO não conseguiu localizar o ex-juiz Aragão para comentar a denúncia de Terezinha.
Se tivesse tido mais cuidado e verificado as informações sobre a empresa, a investidora poderia ter evitado o prejuízo. A Ourobraz está registrada como uma empresa de comercialização de artigos de joalheria no varejo no Rio de Janeiro. Para oferecer a tal caderneta de ouro, deveria ter permissão do Banco Central (BC). E a Ourobraz não possui essa chancela.
O site (www.ourobraz.com.br) não fornece muitos detalhes sobre os donos e gestores. Nem o atendimento telefônico, testado pela DINHEIRO. "Temos 30 anos de mercado e isso responde a qualquer pergunta", limitouse a dizer, na quarta-feira 27, Mércia Oliveira, gerente comercial da Ourobraz. A companhia já foi acionada judicialmente pelo BC em 2005 pela "captação de recursos parcelados do público para aplicação em ouro ou certificados de depósito desse metal, sem prévia e expressa autorização". Foi multada em R$ 3,8 mil, pagos em 2008. Além disso, um dos proprietários, Wilson Borges Pereira Neto, foi processado cível e criminalmente por supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
O exemplo vivido por Terezinha é um alerta para todos os investidores, que devem sempre se assegurar se a instituição possui autorização do BC ou, no caso dos fundos de investimento, se estão inscritos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A consulta é simples. A contrapartida é saber que há controle e fiscalização sobre eles. Além disso, todo cuidado é pouco com os tipos de investimentos oferecidos. "O ouro em barra não funciona como investimento", alerta o presidente de uma corretora especializada no metal.
O ouro ficou na vitrine como uma boa opção após valorização de mais de 40% no auge da crise financeira, quando ultrapassou os US$ 1 mil a onça-troy. Quem quiser arriscar, pode negociar ouro nas corretoras autorizadas pela BM&FBovespa.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |