10 perguntas para Jean-Cyril Spinetta José Sergio Osse
A consolidação do mercado de transporte aéreo internacional ainda está longe de acabar. Essa é a opinião de Jean-Cyril Spinetta, presidente do conselho da franco-holandesa Air France-KLM. Ex-presidente da empresa e ex-diretor da Iata, ele sabe o que está dizendo. Para ele, a crise econômica deverá acelerar fusões e aquisições no setor, e a AF-KLM terá papel de destaque nessa consolidação. Em visita ao Brasil, para anunciar uma parceria com a Gol, o executivo falou com a DINHEIRO sobre o mercado mundial. Confira abaixo a entrevista.
DINHEIRO - Como a AF-KLM tem enfrentado a crise?
JEAN-CYRIL SPINETA - Mantivemos nosso nível de investimentos, um bom nível. E não paramos de investir nem mesmo nesses momentos difíceis. Também tentamos melhorar nossos custos, aprimorando nossa produtividade. Isso é importante em momentos de petróleo caro. Embora ele tenha recuado, ainda não está barato.
DINHEIRO - A consolidação do mercado deve continuar?
SPINETA - Acredito que as dificuldades econômicas de nossa indústria nos levarão a mais consolidações. Isso certamente ocorrerá na União Europeia, mas deve ocorrer também nos EUA. O acordo entre a Delta Airlines e a Northwest Airlines (em 2008) foi apenas o primeiro passo.
DINHEIRO - Onde devem ocorrer novas fusões?
SPINETA - Creio que haverá outros negócios como esse nos EUA, e provavelmente na Europa e na Ásia também. Parte dessa consolidação deverá ocorrer, infelizmente, por problemas financeiros nas empresas. Isso, é claro, poderá ocorrer também na América Latina, por que não?
DINHEIRO - Qual será o papel da AF-KLM nesse cenário?
SPINETA - Certamente nós seremos um dos atores. Fomos um dos primeiros a seguir essa tendência, com a fusão com a KLM. Mas o que temos que fazer agora é nos concentrar em solucionar nossos problemas financeiros e recuperar nossos ganhos.
DINHEIRO - O que pensa da liberalização de voos entre Europa e Brasil?
SPINETA - Acredito que um acordo "céus abertos" com o Brasil seria muito bemvindo, comercialmente, para a AF-KLM. Mas isso ainda depende de muitas variáveis, e assim não há como planejar nada por enquanto.
DINHEIRO - Há planos para elevar a oferta de voos para o Brasil?
SPINETA - Não temos intenção de aumentar o número de voos, ainda mais agora que as coisas não estão fáceis. Mas melhoramos muito nossa malha na região, principalmente no Brasil, nos últimos anos. De 2004 a 2008, elevamos em 50% nossa oferta de assentos. Hoje temos de ser cautelosos, especialmente por conta da situação econômica na Europa e no Brasil. Mas sabemos que o País tem condições de voltar a crescer rapidamente, o que é bom.
DINHEIRO - Há voos suficientes entre a Europa e a América Latina?
SPINETA - Desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, muitas empresas decidiram reduzir seus voos para a América Latina. Algumas até mesmo cancelaram voos. Nós fomos a única empresa que não cortou rotas e, ao contrário, reforçou a malha. Estamos muito presentes na região.
DINHEIRO - Qual sua opinião sobre a Azul, de David Neeleman?
SPINETA - Não tenho como avaliar, pois estou fora do mercado doméstico brasileiro. Mas uma indicação é o que aconteceu com a JetBlue nos EUA (também fundada por Neeleman). No começo, ela tinha uma proposta muito boa e foi um grande sucesso, mas isso tem mudado muito.
DINHEIRO - O que a AF-KLM viu na Gol?
SPINETA - Nos impressionou muito o sucesso inicial da Gol. É uma companhia muito dinâmica, que claramente abriu o mercado brasileiro para uma nova categoria de consumidores.
DINHEIRO - Qual será o benefício dessa parceria?
SPINETA - Nosso objetivo com a Gol é muito simples. Entre os investidores estrangeiros no Brasil, o quarto maior é a França. Com a parceria com a Gol, temos uma ótima chance de melhorar nossa posição.
" As dificuldades econômicas na indústria aérea devem levar a novas fusões "
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