Eu especulo, tu especulas... Por Milton Gamez

O presidente Lula não perde uma oportunidade pública de esculhambar os especuladores. Já fez isso diversas vezes lá fora, inclusive com o microfone da Organização das Nações Unidas, e no Brasil. Mais recentemente, usou a voz dos ministros Guido Mantega e Paulo Bernardo para destilar sua ira contra os especuladores e, assim, justificar a proposta de mudança no rendimento da poupança. Quem tem muito dinheiro e quer se aproveitar da queda dos juros para ganhar no mínimo 6% ao ano pode tirar o porquinho da chuva. O governo determinou até o número que separa o simples poupador do grande especulador: R$ 50 mil.
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Demonizar a especulação é empobrecer o debate econômico.O genial
Buffett é um especulador de primeira |
Qualquer real além disso, mesmo que tenha sido obtido com muito trabalho, faz de você um especulador desprezível e que, portanto, merece ser enquadrado pelo Leão do Imposto de Renda.
Nada contra pagar imposto. É justo e necessário tributar quem tem em benefício de quem não tem. Não fosse assim, não haveria recursos suficientes para o Estado fazer a sua parte na sociedade. Eu pago, tu pagas, ele paga... Mas atacar os especuladores para mexer na poupança é fazer teatro para as massas. Demonizar a especulação é simplificar o discurso e empobrecer o debate econômico. Primeiro, porque a solução para o dilema da poupança - a taxa fixa de 6% além da TR não pode ser um piso para a queda dos juros no Brasil - não foi apresentada. Segundo, porque os especuladores são necessários e estão em toda a parte, dinamizando a economia do País.
Especula quem guarda dinheiro na poupança para se proteger da inflação e ter mais dinheiro lá na frente para consumir. Especula quem acredita no Brasil e investe no setor produtivo, criando empregos e pagando impostos. Especula quem compra ações na Bovespa, sem ou com apoio oficial, como fizeram os trabalhadores que investiram seu FGTS na Petrobras e na Vale. Especula quem afasta o fantasma do desemprego e toma um empréstimo para comprar um carro ou uma geladeira, como incentiva o presidente Lula - com razão, diga-se - nesses tempos de crise. Especula quem constrói moradias, quem as financia e quem as compra. Eu especulo, tu especulas, ele especula...
Nas Bolsas, os especuladores arriscam seu capital para ganhar com ineficiências na formação de preço dos ativos. Seu maior representante no final do século passado foi George Soros. Hoje, o pacato Warren Buffett é um ícone do capitalismo. Ele não é apenas um investidor de longo prazo. É um especulador de primeira. Quem rema no sentido contrário, como Buffett, proporciona a liquidez necessária para os investidores que precisam de uma porta de saída nos momentos de pessimismo. São os especuladores que vendem para os demais investidores nas horas de otimismo.
Não fossem eles, o mercado de capitais seria ineficiente, as empresas teriam mais dificuldade em levantar capital e o dinheiro ficaria empoçado. São tão necessários quanto os investidores individuais e institucionais.
Se uma empresa exportadora quer se proteger contra a queda do dólar e não houver um especulador na outra ponta, não sai negócio e ela pode quebrar. Um produtor rural que não possa vender sua produção antecipadamente na Bolsa e não encontra um especulador disposto a correr o risco dos preços pode não ter dinheiro para plantar a próxima safra.
O mundo precisa dos bons especuladores para sair da crise. Quem é dispensável é o fora da lei, o manipulador dos mercados, o fraudador, o criminoso do colarinho branco que faz negócios com informações privilegiadas, o corrupto que lava seu dinheiro ilegítimo em Bolsas e negócios legítimos, o empresário que abusa do poder econômico para aniquilar a concorrência, o fornecedor de produtos piratas, o sonegador de impostos. Esses tipos devem ser perseguidos e punidos, pois causam danos a toda a sociedade. Eles preferem os paraísos fiscais aos bancos locais para guardar suas fortunas. E têm mais, muito mais que os R$ 50 mil que distinguem os poupadores dos "especuladores" da caderneta de poupança na Era Lula. |