Carlos Lupi, ministro do Trabalho
"O IBGE só divulga coisa ruim" Por GUSTAVO GANTOIS
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, é um eterno otimista. No início deste ano, quando muitos analistas previam um trimestre devastador para os índices de emprego, ele garantiu que os dados do governo indicariam um saldo positivo de contratações formais. E estava certo. Agora, Lupi aposta que a economia crescerá 2,5% em 2009, quando a maioria das previsões aponta recessão. "Todos os setores estão voltando ao normal", diz. Em Brasília, uma de suas proezas foi garantir o apoio de todas as centrais sindicais ao governo. E ele, que começou a vida vendendo jornais e lingerie nas ruas do Rio de Janeiro, na última semana recebia uma comitiva de autoridades chinesas, interessadas em conhecer a legislação trabalhista brasileira. Leia a seguir sua entrevista.
DINHEIRO - O IBGE divulgou que o emprego industrial teve a sexta queda, registrando 0,6% em março.
CARLOS LUPI - O IBGE sempre divulga coisa ruim. O IBGE e os economistas. Eu tenho dificuldade em convencer as pessoas sobre diferenças de metodologias. O IBGE faz pesquisas que são amostragens da realidade de uma área, no caso a indústria brasileira. Caged não é pesquisa. São dados computados, todo mês, da realidade dos 7 milhões e 115 mil empresas brasileiras. O Caged é uma fotografia. O IBGE é uma pintura. A pintura depende da inspiração do artista. É óbvio que tivemos em janeiro, fevereiro e março uma queda, quando se compara com o ano passado. Mas em abril e maio estamos vendo uma força atípica em todos os setores. O setor automotivo está com 95% de produção. Praticamente todos os setores estão trabalhando acima do normal.
DINHEIRO - Mas então por que conviver com os dois sistemas?
LUPI - O IBGE não é sistema nosso.
DINHEIRO - Mas é do governo.
LUPI - O Caged é necessário para formular as políticas públicas. Para fazer seguro-desemprego, abono salarial. É o único órgão medidor das relações de trabalho que eu tenho. O IBGE, por sua vez, faz uma pesquisa que não é só do mercado de trabalho. Faz para a indústria, para o comércio. Mede tudo o que eles avaliam ser importante para se ter programas político-sociais do próprio governo. Em dezembro, quando tivemos 650 mil demissões, fui uma semana antes ao presidente e falei: "Presidente, estourou a boiada." O Caged me permitiu fazer isso, não o IBGE.
DINHEIRO - E isso foi suficiente para preparar o governo para o pior?
LUPI - O aperto das linhas de crédito internacionais provocou uma queda brusca na produção. O Caged só apontou algo de que já tínhamos conhecimento, mas não dimensão. Desde dezembro começamos a tomar atitudes. O Banco Central agiu, a Fazenda zerou o IPI - e era necessário, porque as montadoras tinham estoque de três meses. Ainda assim, eu falei para a indústria que eles estavam cometendo um erro, uma precipitação. Eles estavam demitindo e teriam de contratar. Isso está gravado. Disseram que eu era louco.
DINHEIRO - Se o Caged é sua fonte de confiança maior, como será o resultado da fotografia de abril?
LUPI - Vai ser bem melhor que o de março. Não tenho como precisar um número, mesmo porque eu passo um hoje e chega uma empresa amanhã e demite ou contrata cinco mil pessoas. Mas não há como ser menor, isso eu garanto. A margem que temos coletado não dá espaço para isso. Toda hora vejo o Dieese e o IBGE falando das sete regiões metropolitanas. Quem disse que o Brasil são somente essas sete regiões?
DINHEIRO - Quais são as regiões ou setores que oferecem as melhores oportunidades de trabalho?
LUPI - Estamos crescendo diversificadamente. A indústria continua em crise, é verdade. É um setor que tem um estoque muito alto, principalmente por causa das exportações. A indústria automobilística caiu bem, mas já está zerando o prejuízo. Quem ainda depende do mercado externo está com um estoque de 15 a 20 dias, por causa do mercado interno. Diminuíram muito o risco de produção. O setor de mineração é outro. Acabei de vir da China, que é o maior comprador do Brasil agora. A indústria vai se recuperar. A indústria alimentícia, que teve problemas graves em março, abril, vai superar essa fase em maio. O setor sucroalcooleiro, principalmente em Pernambuco e em Alagoas, que demite muito, pela primeira vez, desde janeiro, será positivo. E não só eles. O da construção civil está se recuperando muito bem. O de sapatos e couro, que estava caindo, voltou a crescer. Não no Sul, mas em São Paulo. Mais especificamente Franca. O dólar fez com que a indústria voltasse a ser competitiva.
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