O homem-bomba da Suíça Rudolf Elmer foi diretor nas Ilhas Cayman de um grande banco suíço. Arrependido, ele se oferece para colaborar com o governo brasileiro para ajudar a rastrear o dinheiro sujo
Leonardo Attuch

 |
"Pelo banco, passaram recursos de empresários, políticos e advogados do Brasil"
Rudolf Elmer, ex-diretor do Julius Baer |
Vivendo num pequeno arquipélago do oceano Índico, nas Ilhas Maurício, o ex-banqueiro Rudolf Elmer se transformou no inimigo público número 1 da Suíça. Chamado de “traidor” do seu país, ele pretende implodir uma tradição de mais de 500 anos: o segredo bancário. Graças ao sigilo, a Suíça administra hoje mais de US$ 3 trilhões em contas secretas. Elmer foi auditor de um dos maiores bancos locais, o Julius Baer, que tem US$ 42 bilhões em ativos, e dirigiu a filial das Ilhas Cayman até 2002, quando foi demitido e iniciou uma longa guerra com o banco. Agora, ele pretende revelar o que sabe – e garante que seus segredos passam pelo Brasil. “Posso colaborar com governos de vários países num esforço para rastrear e repatriar recursos não declarados”, disse ele com exclusividade à DINHEIRO (leia à página seguinte). Elmer afirma que passaram pelo Julius Baer recursos de políticos, empresários e advogados brasileiros. Dos clientes notórios da América Latina, ele destaca a família do ex-presidente do México, Carlos Salinas.
Rudolf Elmer se transformou num homem-bomba porque, pela primeira vez, um banqueiro suíço vem a público revelar os meandros de uma atividade sempre cercada por sigilo e mistério. E suas denúncias ocorrem num momento de grande pressão sobre a Suíça. O UBS, maior banco do país, fez um acordo com a Justiça dos Estados Unidos e abriu as identidades de mais de 200 clientes. O Credit Suisse, segundo banco do país, informou, dias atrás, que fechará as contas de clientes dos Estados Unidos mantidos em filiais off-shore, como os paraísos fiscais das Ilhas Cayman. E, no Brasil, banqueiros suíços foram presos em três operações recentes da Polícia Federal: Kaspar I, Kaspar II e Castelo de Areia. “Estamos assistindo ao começo do fim dos paraísos fiscais”, diz Elmer.
 |
Sede do Banco, em zurique, na Suíça: com US$ 42 bilhões em ativos, o Julius Baer administra grandes fortunas globais |
Os papéis mantidos pelo ex-diretor do Julius Baer revelariam os nomes das empresas – ou trusts – que seriam mantidas por clientes de vários países do mundo no Julius Baer. Mas Martin Somogyi, porta-voz do banco, disse à DINHEIRO que são “documentos forjados”. Elmer, por sua vez, nega que tenha fabricado qualquer evidência. E diz que está pronto para colaborar com autoridades brasileiras. Suas denúncias já ajudaram o governo da Bélgica a investigar o banqueiro Philipp Stoclet, dono de uma das maiores fortunas do país. Além disso, Elmer diz ter cooperado com autoridades fiscais da Alemanha e dos Estados Unidos, onde foram identificados nomes de cotistas em paraísos fiscais do Carlyle, uma das maiores empresas de private equity do mundo. “O sistema financeiro suíço é parte de um esquema de corrupção sistêmica”, diz ele, que está prestes a concluir um livro sobre o tema, chamado Um paraíso para alguns não é paraíso para ninguém.
Muitos dos registros do Julius Baer apareceram em primeira mão no site americano Wikileaks, especializado em vazamentos de documentos confidenciais. Incomodados, os diretores do banco em Zurique entraram com uma ação judicial para tentar fechar o Wikileaks. Perderam e a decisão de um juiz da Califórnia, tomada em março deste ano, foi considerada um marco na defesa da liberdade de informação. “Já não é mais possível ocultar a verdade”. Leia a seguir a entrevista exclusiva de Elmer à DINHEIRO.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |