A missão de Armínio na Bolsa que significa a posse do investidor na presidência do Conselho de Administração da BM&FBovespa
Milton Gamez

 |
É 28 DE ABRIL, TERÇA-FEIRA de manhã. Como de costume, os engraxates já estão a postos na praça Antônio Prado, no centro velho de São Paulo. Porém, seus principais clientes, os operadores e executivos da BM&F, não passam por ali. A gigantesca porta de madeira da bolsa de mercadorias e futuros está fechada. o imenso saguão, que antes abrigava os barulhentos operadores e seus assistentes com jalecos amarelos, virou uma silenciosa sala de exposições. Gravuras da coleção pessoal de José Mindlin se intercalam a poemas nas imensas paredes. Um deles, de Alice ruiz, compõe o retrato de uma bolsa que, a rigor, nem existe mais: "Minha estrela guia desvia e me atropela." A empresa renasceu na BM&FBovespa, a quarta maior do mundo em valor de mercado, deixou de ser um clube de corretores e virou uma companhia sem dono, com 120 mil acionistas. Por uma porta lateral, os pés de Armínio Fraga conduzem o novo presidente do Conselho de Administração ao sétimo andar, onde tomará posse. Sinal dos tempos.
Com mais de um século de história, a bolsa brasileira se reinventou no ano passado e luta para superar a mais grave crise econômica global desde a Segunda Guerra Mundial. o próprio mundo financeiro internacional passa pela maior crise de identidade de todos os tempos e deve sair dela com muito mais regulamentação e supervisão do estado. É nesse contexto que Fraga, um economista com projeção mundial, aceitou o segundo convite que recebeu em menos de um ano para ser o principal líder da BM&FBovespa. O primeiro chamado, na época da fusão da Bovespa e da BM&F, foi recusado. De lá para cá, tudo mudou para pior. Wall Street derreteu. A BM&FBovespa, também. A febre dos IPOs, que movimentou o mercado em 2007, passou. A bolsa, que nos últimos 11 meses teve uma gestão mais técnica, voltada para a fusão de duas companhias, precisava de um reforço à altura dos acontecimentos, que a conduzisse em plena crise sem perder de vista o objetivo de longo prazo: tornar-se um pilar de um centro financeiro regional na América Latina.
Fraga adorou a insistência de Gilberto Mifano, seu antecessor, e do presidente da diretoria, Edemir Pinto, seu novo subordinado. Eles voltaram à carga e o convenceram a liderar um conselho de peso, com novos nomes como Cláudio Haddad (Ibmec), Luis Stuhlberger (Credit Suisse Hedging Griffo), Fábio de Oliveira Barbosa (ex-Tesouro Nacional), Cândido Bracher (Itaú BBA), entre outros. "Estou muito feliz", afirmou Fraga à DINHEIRO. E porque aceitou a missão? É hora de colaborar com o debate e a regulamentação do mercado, que vai afetar o País nos próximos anos. "Estive no governo duas vezes e sei o peso que a bolsa tem", afirma. "É uma grande honra e uma grande responsabilidade presidir o Conselho da Bolsa nesse momento. Espero estar à altura do desafio."
 |
A modéstia é desnecessária. Fraga, como diria Obama, é o cara do momento - depois, é claro, do presidente Lula. Ex-presidente do Banco Central no governo FHC, que acabou com a hiperinflação e fortaleceu o sistema bancário nacional, ele trabalhou com o megainvestidor George Soros em Nova York e hoje é sócio da Gávea Investimentos, empresa com quase US$ 5 bilhões sob gestão, no Rio de Janeiro. Tem participado ativamente dos altos fóruns econômicos aqui e no Exterior. Fraga elaborou em janeiro, junto com o lendário Paul Volcker, ex-presidente do banco central americano e atual conselheiro econômico do presidente Barack Obama, uma ampla proposta de reforma e estabilização financeira. Endossou sugestões para que os agentes do mercado de capitais, inclusive fundos de hedge e de participações em empresas, sigam padrões de transparência, principalmente em relação a liquidez, práticas de gerenciamento de risco e capital. Ao assumir o comando da BM&FBovespa, traz sua bagagem internacional para o centro do debate. A bolsa vai precisar dela. "O Armínio tem projeção internacional. Isso é muito bom para a bolsa", afirma o ex-presidente da Bovespa Raymundo Magliano Filho. "Agora a empresa é do mercado, não é mais um clube de corretores", diz ele.
 |
No mesmo dia em que Fraga tomou posse, a Comissão de Valores Mobiliários colocou em audiência pública uma minuta de projeto com novas normas e procedimentos a serem observados nas operações realizadas com valores mobiliários em mercados regulamentados. A ideia central é aperfeiçoar o atendimento das corretoras aos investidores. Mas o texto que apresenta a minuta toca, de passagem, num ponto sensível para a bolsa. O xerife do mercado de capitais reitera que quer aumentar a concorrência no mercado de ações e pode, no futuro, autorizar a negociação desses papéis fora das bolsas. Não há nada de concreto nesse sentido, mas a ideia, lançada em 2007, não foi esquecida. E o que Fraga acha? "Prefiro não comentar, não li o texto", desconversa. Não se entra num debate como esse chutando a porta, e ele sabe disso.
Internamente, quem vai continuar mandando no dia a dia da bolsa é o presidente executivo, Edemir Pinto. Mifano, que durante 15 anos foi superintendente da Bovespa e por 11 meses presidiu o Conselho da BM&FBovespa, vai prestar consultoria a Fraga e será liberado para outras atividades profissionais. A missão de Fraga na BM&FBovespa, além de cobrar bons resultados para todos os acionistas, é pensar a estratégia de sustentabilidade do negócio em longo prazo. Não é pouca coisa, dado o papel da empresa no desenvolvimento do mercado de capitais e na atração de recursos para as centenas de companhias dos outros setores. "A bolsa é uma alavanca fundamental para o crescimento do País. A BM&FBovespa presta um serviço que vai além do negócio em si, ajuda a fazer um Brasil melhor", diz Fraga. Sua principal atividade continuará sendo a gestão da Gávea, que administra fundos de investimento e de participações em empresas como Cosan, Droga Raia, Aliansce e McDonald's. O economista garante que não haverá conflito de interesses entre as duas atividades. "Fiz questão de discutir longamente sobre isso. Não terei informações sobre o dia a dia operacional da bolsa", afirma. Como ele mesmo diz, a BM&FBovespa tem de dar o exemplo de transparência, governança e direção a seguir. Como uma estrela guia.
|