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Uma análise viva e articulada
Por José Roberto Mendonça de Barros

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O maior erro do governo atual foi o de ter gasto o bônus da sobrearrecadação resultante da grande formalização de empresas e trabalhadores com um inchaço inédito
na máquina estatal

Carlos Alberto Sardenberg faz um jornalismo sempre contemporâneo a partir de uma aguda análise da realidade brasileira. Mais precisamente, sua visão do Brasil e do mundo é lastreada em conceitos claros sobre o que significam mercados, instituições, o Estado e o próprio desenvolvimento econômico. Seu trabalho, sempre acurado, é especialmente relevante nos dias de hoje. Por uma razão: vivemos há seis anos sob o maior bombardeio da propaganda oficial de que se tem notícia. Segundo a ótica chapa-branca, tudo que o atual governo faz é o melhor, o maior e não tem precedentes na história - mesmo quando o discurso se altera da água para o vinho, da herança maldita para a bendita estabilização conseguida no passado e apropriada no presente. É de valor indispensável ter alguém com a competência de Sardenberg para colocar os fatos na perspectiva correta, permitindo ao leitor fazer sua própria análise, mais adequada para entender o nosso país.

Esta sua capacidade de alertar para o que realmente importa e recolocar o debate em bases corretas pode ser vista em seu novo livro, Neoliberal, não. Liberal. De leitura extremamente agradável, o livro discorre sobre passagens recentes da economia brasileira, mas sempre tendo como pano de fundo caminhos para o futuro. Gostaria de chamar a atenção do leitor para alguns pontos analisados pelo autor que evidenciam uma ótica correta de captar o debate econômico:

 de 1993 até 2007 o mundo viveu, sob políticas liberais de produção e comércio, um período sem precedentes de crescimento, integração e de redução da pobreza e da fome. A atual crise, oriunda da farra do crédito desregulamentado (que tem de ser enfrentada, inclusive por meio de maior ativismo do Estado), não apaga nem desfaz esta realidade. Não existe, como alguns gostariam, o colapso do capitalismo. Da mesma forma, mantêm-se indispensáveis ao longo do tempo alguns princípios básicos: as contas públicas têm de estar equilibradas, a dívida tem de ser paga, a inflação tem de ser baixa e o Banco Central tem de ser independente e mandatado pelo Congresso.

 a força do crescimento vem da inovação, da eficiência e do empreendedorismo, como ilustrado pelo caso de Eliane Portela, moradora da favela de Heliópolis, em São Paulo, que com quatro computadores montou uma lan house em sua casa e prosperou. Num momento em que todos os empresários correm para obter favores de Brasília, eis uma observação particularmente útil. Lembro-me, a propósito, de uma experiência do tempo em que trabalhei no Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP com a indústria de fertilizantes, ainda em 1979. Conseguimos importar um software que, devidamente adaptado ao caso brasileiro, propiciou uma instantânea redução de mais de 10% no custo industrial de uma dada empresa. Oferecido de graça para o setor, nenhuma outra companhia se interessou pelo sistema. Buscando entender o que se passava, ouvi de um experiente executivo a explicação: num período de controle de preços, era mais fácil viajar a Brasília e conseguir uma autorização para reajustes do que se aborrecer contratando técnicos e resolvendo problemas concretos da produção. Era assim o Brasil antiliberal.

 o maior erro do governo atual foi o de ter gasto o bônus da sobrearrecadação resultante da grande formalização de empresas e trabalhadores com um inchaço inédito na máquina estatal: "Está armado o maior aparelhamento já visto no Brasil", diz Sardenberg, "resultando numa mistura explosiva de ineficiência e corrupção". Inúmeros trabalhos recentes demonstram cabalmente outra afirmação do autor: "O PAC é apenas um programa de obras, limitado, com enorme propaganda."

O leitor ainda é brindado com um justo tributo a Mario Covas e a colocação da privatização na perspectiva adequada. Direto e claro, Neoliberal, não. Liberal é uma leitura recomendável a todos os que buscam, para além dos discursos oficiais, entender o país em que vivemos.

 


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