Um vinho de design Num projeto de 40 milhões de euros, que inclui um centro equestre e um spa cincoestrelas, a adega da vinícola Vale d'Algares reúne o rústico e o futurista numa atmosfera que parece Blade Runner na Corte do Rei Arthur
Luciano Suassuna, de Cartaxo (Portugal)

Uma construção 16 metros abaixo do nível do solo, na pacata Vila Chã de Ourique, a 70 quilômetros de Lisboa, esconde sob tijolos centenários o projeto ainda inconcluso da primeira, e altamente impactante, adega de design do mundo do vinho. Vinhedos afora, o casamento entre arquitetura e vinícolas tem produzido construções memoráveis. Mas o caso da Vale d'Algares é único porque seu espetáculo visual não está nas formas externas, mas no interior.
Vista de fora, a vinícola portuguesa criada há apenas cinco anos é um enorme galpão de tijolos, originalmente pertencente a um antigo produtor local. Mas ao descer as escadas de vidro com iluminação lateral, o visitante mergulha em ambientes que agregam lustres de inspiração medieval com lâmpadas de LED no lugar de velas, uma pirâmide invertida de concreto com outra feita em vidro e aço e ainda luzes de tons vermelhos e dourados que fazem reluzir os tonéis de carvalho. Na Vale d'Algares, nada lembra os empoeirados depósitos de garrafas e os insossos salões de barricas comuns às grandes vinícolas. Aqui, a atmosfera remete a uma espécie de Blade Runner na Corte do Rei Arthur, um corte do rústico com o futurista.
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Arquitetura impactante:
pirâmide de vidro e lustres medievais com luzes de LED no lugar das velas compõem o cenário e destacam os tonéis de carvalho |
Construída ao lado de uma gigantesca casa de eventos, a adega está pronta para ser conectada, graças a uma passagem subterrânea, a um hotel e spa cincoestrelas de 50 quartos que será inaugurado no próximo ano, no terreno vizinho. Todo esse projeto de turismo, lazer e entretenimento ficou a cargo do arquiteto Manoel Assumpção, do escritório Tall and Taller, de Lisboa. "Na adega, a complexidade espacial aumenta com a profundidade da descida", definiu o escritório no seu projeto. "Frestas e desencontros deixam antever trechos, sem que nunca o todo seja perceptível."
De fato, a descida é um mergulho num mundo de recortes, como a criativa ideia de rasgar simetricamente as antigas cubas de concreto, usadas na vinificação, para formar um ambiente que oferece a ilusão infinita de uma sala de espelhos. Em fase de acabamento, será ali o depósito dos espumantes. Num canto próximo às barricas fica um dos pontos altos da adega, a sala de degustação com uma mesa quadrada de vidro e madeira, vazada no centro, 20 poltronas de couro em volta e iluminação para as taças de baixo para cima. "Nossa adega tem capacidade hoje para 140 mil garrafas por ano, e vamos expandi-la para apenas 400 mil", explica a CEO, Sofia Lourenço Martins, 41 anos. "Não queremos trabalhar quantidade, mas qualidade." Por isso, possui apenas duas linhas, uma premium, sob o rótulo Guarda Rios, e outra super premium, sob o rótulo Vale d'Algares.
A apenas 35 minutos de carro de Lisboa, os 100 hectares da Herdade de Vale d'Algares foram adquiridos em 2002, para ser apenas a propriedade de final de semana de Sofia e seu marido, um empreiteiro português com negócios em Luanda e Salvador, entre outras cidades. Mas logo resultou num projeto bem mais ambicioso. Com 20 milhões de euros próprios e a mesma quantia proveniente de fundos europeus, o casal conclui no próximo ano o conjunto formado por um centro equestre, um salão de eventos, a vinícola, com a adega, e o hotel e spa cinco-estrelas. "Não posso negar que os conhecimentos do meu marido e sua experiência em construções ajudaram", diz ela. No momento, o centro equestre opera com 30 reprodutores da raça lusitana, mas a grande atração do local será um enorme pavilhão multieventos, totalmente coberto, atualmente em fase de conclusão. "Já promovemos um concurso de saltos que foi classificado como evento nota dez pela Federação Internacional", conta Sofia.
Ex-aeromoça da TA P, ex-guia turística, ela se formou em psicologia e direito antes de virar a CEO do grupo Quatro Âncoras, como é oficialmente designado o projeto de Vale d'Algares. Diariamente, ela deixa as duas filhas do casal em Lisboa e roda 140 quilômetros de ida e volta na autoestrada para acompanhar os primeiros resultados da vinícola e a evolução da obra do hotel. No salão de eventos contíguo à adega, já promoveu lançamentos de carros, reuniões empresariais e casamentos da alta sociedade local. A menina dos olhos, contudo, é o hotel e spa, cujas fundações já estão feitas. "Comecei aqui para ter um local de fim de semana e acabei arrumando um projeto para toda a vida", diz Sofia.
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VISIONÁRIA:
Sofia Martins, a CEO da Quatro Âncoras, como é
designado o projeto Vale d'Algares, transformou
o lazer de fim de semana em projeto de vida.
A vinícola possui espaço para eventos (acima)
e uma moderna sala de degustação |
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