José Goldemberg, físico e professor da USP
"Não precisamos de energia atômica" POR JOSÉ SERGIO OSSE

O físico José Goldemberg é um homem pragmático. Após 30 anos de oposição ao uso de energia nuclear no Brasil, ele apoia a decisão do governo de concluir a usina Angra II. "Já foi gasto US$ 1 bilhão nessa obra. É melhor terminar." Mas, para ele, que já foi secretário do Meio Ambiente e ministro da Educação, além de reitor da USP, o assunto energia nuclear tem de acabar com a conclusão da obra. Isso, porém, é pouco provável. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, quer 50 novas usinas nucleares até 2050. Para Goldemberg, isso é um "absurdo". "Há outras alternativas", diz, alegando que o País usa apenas 30% de seu potencial hidrelétrico. Para ele, a energia nuclear não deve ser usada nem como apoio ao sistema elétrico. Para esse fim, aposta em fontes renováveis, como a queima do bagaço de cana. Confira abaixo a entrevista concedida à DINHEIRO.
DINHEIRO - O Brasil precisa, hoje, da energia nuclear?
JOSÉ GOLDEMBERG - O Brasil não tem nenhuma necessidade da energia nuclear. Não acredito que ela seja uma boa solução para o País. Temos, à nossa disposição, opções muito melhores. A hidrelétrica, por exemplo, que, apesar do que se pensa, ainda não é explorada muito bem no Brasil. Há ainda um enorme potencial nesse campo. Temos também a alternativa da energia eólica, e, principalmente, a opção do uso da energia extraída do bagaço de cana-de-açúcar. Essa é, para mim, uma fonte de energia com enorme potencial.
DINHEIRO - Então por que o País apostou nessa matriz?
GOLDEMBERG - A energia nuclear sempre foi um corpo estranho no Brasil. Ela surgiu quando, em 1975, o general Ernesto Geisel quis usar esse tipo de energia. Não fazia sentido algum. Itaipu já estava em construção. Era, portanto, um absurdo ir atrás da energia nuclear. Itaipu foi concluída há 15 anos e está funcionando perfeitamente até hoje. Já as usinas de Angra demoraram, e Angra III ainda está no meio do caminho. Em outros países, como a França e a Alemanha, a energia nuclear era uma boa alternativa naquela época. Afinal, eles não tinham nenhuma opção a que recorrer. O mesmo não ocorre no Brasil. Temos diversas alternativas e o uso de energia nuclear não coaduna com nossa realidade e nossas oportunidades.

DINHEIRO - Qual sua opinião sobre a decisão do governo federal de concluir a usina Angra II?
GOLDEMBERG - Angra III é um projeto engastalhado, parado há mais de 20 anos. Mas é uma situação complicada. Como a do copo com água pela metade. Dependendo de quem olha, ele está meio cheio, ou meio vazio. O projeto dessa usina está no meio do caminho. Nessa situação, ou o governo decide perder o que já investiu, perto de US$ 1 bilhão, ou acaba o projeto. Nosso governo decidiu acabar a obra. Eu nem seria contrário a terminar a usina, mas isso teria de ser um fato isolado. O problema é que o governo tenta amarrar a finalização da usina a um plano muito maior, que inclui a construção das quatro plantas nucleares anunciadas recentemente.
DINHEIRO - Então o sr. é a favor da conclusão de Angra II?
GOLDEMBERG - Se ao fim das obras Angra III for um evento restrito a si mesmo, não sou contra sua conclusão, mas sim a favor. Em última instância, para que o País não perca um investimento de quase US$ 1 bilhão em infraestrutura. O problema é que o término da obra não deve encerrar o debate. Ao contrário, esse evento poderá ser usado para dar impulso à campanha do governo, que quer usar a energia nuclear em grande escala. O Brasil não precisa disso, temos várias alternativas. Por isso, sou contra a conclusão da usina se ela servir como o primeiro passo para o projeto do ministro (de Minas e Energia, Edison Lobão) e do governo de ampliar o uso de energia nuclear no País.
DINHEIRO - Voltar a apostar em energia nuclear seria ruim para o País?
GOLDEMBERG - Isso pode muito bem ser o primeiro passo para se desvirtuar a matriz energética brasileira. É um enorme absurdo, ainda mais quando o ministro Lobão fala em construir 50 usinas nucleares no País até 2050. Não precisamos disso. No Brasil, a rede é toda interligada. Dizer que construir duas usinas nucleares no Nordeste seria uma forma de garantir a independência energética da região é uma bobagem. O que precisamos é usar melhor nossas reservas hidrelétricas. Apenas um terço do potencial dessa matriz é utilizado atualmente no País.

DINHEIRO - O que impede o avanço de novos projetos de hidrelétricas?
GOLDEMBERG - O governo sempre reclama, quando fala das propostas para construir novas hidrelétricas, dos obstáculos impostos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). O Ibama não é o obstáculo. Afinal, ele é parte do próprio governo federal. Eles que resolvam os problemas com o Ibama e abram caminho para facilitar a implantação de novas usinas hidrelétricas.
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