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Lorde Brennan, presidente da Canning House
"O Brasil não deve ser subjugado"
Por MILTON GAMEZ

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Lorde Brennan, 67 anos, tem aquela elegância típica que os brasileiros atribuem a um "verdadeiro lorde inglês". Exceto por um detalhe: ele é escocês. E adora caipirinha. Degustar uma dose da bebida nacional foi sua única condição para dar esta entrevista à DINHEIRO, um dia antes de participar dos debates do Fórum Econômico Mundial América Latina 2009, que aconteceu entre 14 e 16 de abril, no Rio de Janeiro. Lorde Brennan é membro da House of Lords, câmera alta do Parlamento britânico, e presidente da Canning House, um instituto britânico especializado em América Latina, Espanha e Portugal. Sincero, vai direto ao ponto: "O Brasil não deve ser subjugado pelas demandas econômicas do resto do mundo."

DINHEIRO - O Brasil pode se tornar um centro financeiro para as empresas latino-americanas, que hoje buscam recursos em Nova York e Londres?

BRENNAN - No longo prazo, é provável, mas desde que o Brasil tome uma atitude mais determinada, que crie um ímpeto favorável à integração regional, como o Mercosul e o banco soberano. Na Europa, Londres é um centro financeiro histórico. Frankfurt e Paris passaram a ter mais relevância somente após a criação da União Europeia.

DINHEIRO - Isso é provável, mas é necessário?

BRENNAN - Sim, mas não o Brasil como o único centro. A América Latina tem tamanho, população e atividade econômica para comportar dois centros financeiros. México e Brasil, naturalmente. No lado andino, é difícil decidir. O Chile é muito pequeno. O país ideal para o centro andino seria a Colômbia. A Colômbia é o país do futuro. Não tanto como Brasil e México, mas é algo novo para quem procura investir na região. Em cinco a dez anos, terá muito destaque.

DINHEIRO - A Colômbia poderia superar o problema das drogas em tão pouco tempo?

BRENNAN - Praticamente já superou. O problema com as Farc (guerrilha) é localizado. Já foram desmobilizadas as organizações paramilitares de direita.

"O presidente Lula não é um economista, mas tem um enorme bom senso"

Luiz Inácio Lula da Silva Presidente do Brasil

DINHEIRO - Como vê o Brasil no cenário de crise atual?

BRENNAN - O Brasil tem um papel de extrema importância. É um grande País do ponto de vista econômico, muito relevante no conceito dos BRICs (grupo que também inclui Rússia, Índia e China). É o País mais importante a falar em nome dos países em desenvolvimento.

DINHEIRO - Este é um mérito do presidente Lula?

BRENNAN - O presidente Lula não é um economista, mas tem enorme bom senso. O problema da economia atualmente é que faltou bom senso. É correta a ideia de Lula de deixar os mercados operarem sob uma regulamentação baseada no que é bom para o País. Não se pode ter um mercado totalmente livre nem totalmente controlado pelo Estado.

Tem que haver equilíbrio. Nesse ponto, Lula tem sido um bom presidente. Consegue manter equilíbrio entre a ação do mercado e a do Estado, deixando cada um fazer o que sabe fazer melhor. O Estado, por exemplo, tem os programas de ajuda aos pobres, que têm sido muito bem-sucedidos.

DINHEIRO - A popularidade de Lula caiu, embora continue muito alta, acima de 70% de aprovação. O sr. vê algum risco de o governo, diante das eleições de 2010, relaxar demais a austeridade fiscal?

BRENNAN - A maioria dos políticos gostaria de ter a popularidade de Lula. É muito importante para o Brasil garantir a continuidade das políticas atuais, quem quer que seja o próximo presidente. Os programas econômicos e sociais podem ser continuados apesar desta crise. Deveriam ser continuados por causa da crise.

Não há motivos para o Brasil ser subjugado pelas demandas econômicas do resto do mundo. Lula foi muito assertivo no G-20 sobre isso. Os problemas que enfrentamos agora foram criados pelo mundo desenvolvido e agora é a hora de os países desenvolvidos ouvirem os países em desenvolvimento sobre os próximos passos. Tenho certeza de que as mudanças no FMI irão refletir as ideias do Brasil, da China e da Índia

DINHEIRO - Não é irônico que o Brasil desta vez esteja emprestando dinheiro ao FMI, em vez de tomar emprestado?

BRENNAN - É uma ironia feliz. O Brasil atingiu um patamar, é um tributo à America Latina. Pela primeira vez na história os latino-americanos atingiram uma posição na vida econômica internacional que é estável, produtiva e tem futuro.

DINHEIRO - Como vê a Venezuela e a Bolívia?

BRENNAN - Esses países são a exceção. Há dois tipos de políticos na América Latina atual. Um deles comanda uma economia equilibrada, talvez mais voltada para a centro-esquerda do que para a centro-direita, como Chile, Brasil, México, Uruguai.

A Colômbia é de centro-direita e está saindo de seus problemas. Os políticos de países que tomam outra rota, como a Venezuela e a Bolívia, são produtos da história. A Venezuela produziu o Chávez por causa dos governos desastrosos que o precederam, com êxodo maciço de dinheiro para Miami. O problema é que Chávez está no poder há muito tempo. Talvez ele tenha sido necessário para promover uma grande mudança, mas deveria ter adotado gradualmente as políticas econômicas de países como Brasil e México. A Bolívia tem uma população indígena enorme e era inevitável que tivesse um presidente indígena. Ele (Evo Morales) tornou-se um grande propositor de justiça socialista.

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