Oracle mais livre do que nunca Com a compra da Sun, companhia se torna o grande nome do software de código aberto e bate de frente com IBM, HP e Microsoft
MÁRCIO KROEHN

 |
LARY ELLISON, CEO DA ORACLE
|
"A Oracle será a única empresa capaz de projetar um sistema integrado em que todas as peças se encaixam e funcionam juntas"
Na última semana, o mercado se surpreendeu com a união de dois gigantes de TI . Larry Ellison, o todo-poderoso da Oracle, comprou a Sun Microsystem de seu velho amigo Scott McNeally, por US$ 7,4 bilhões. "Essa combinação é uma evolução natural do nosso relacionamento e será um evento decisivo no setor", afirma McNeally. A notícia veio menos de um mês depois que a IBM tentou, sem sucesso, comprar a Sun, sua arquirrival do Vale do Silício. Trata-se da 51a aquisição feita pela Oracle nos últimos quatro anos. Nenhuma, porém, teve tanto impacto como a anunciada na semana passada. Apesar de próximas - a Oracle foi uma das primeiras a adotar a linguagem Java da Sun - essa união parecia improvável. Até então, a Oracle nunca demonstrara interesse em atuar na área de hardware. A Sun é uma empresa majoritariamente baseada na produção de equipamentos, como servidores. Com isso, a companhia entrará num segmento dominado por companhias de peso como IBM, HP e Dell, suas antigas parceiras. "Estou muito surpreso", declarou Steve Ballmer, CEO da Microsoft, ao saber da aquisição. A questão que deixa o mercado em dúvida é se a inexperiente Oracle terá capacidade para inovar em hardware a ponto de se destacar neste ninho de gigantes. Já na área de softwares, a aquisição tem outro tom. Ao incorporar a mãe do software livre, a Oracle, para desespero da Microsoft, se torna a maior produtora mundial de programas Open Source. Com o know-how da Sun e o caixa da Oracle, pode-se esperar um grande investimento nessa área. No Brasil, a nova Oracle também ocupará o lugar da Microsoft entre as maiores empresas de tecnologia da informação. De acordo com o IDC , a Oracle passa da 11a posição para a 5a, ficando atrás apenas de IBM, HP, Positivo Informática e Itautec.
 |
A grande virada no destino da Sun é, segundo Donald Feinberg, vice-presidente de pesquisas do Gartner, mais positiva do que uma possível compra pela IBM. "Oracle e Sun têm culturas parecidas e complementaridade de portfólio de produtos", afirma. O grande ponto de interrogação nessa história é levantado por um analista de TI que prefere não se identificar. Se até hoje a Sun teve dificuldade em se manter no mercado mesmo fabricando hardwares, por que a Oracle conseguirá se destacar? Mais uma vez, a grande capacidade financeira da Oracle pode resolver essa questão. A autonomia conquistada com a compra da Sun permitirá à companhia não depender mais das máquinas de antigos parceiros para oferecer seus produtos. "A Oracle será a única empresa capaz de projetar um sistema integrado dos aplicativos ao disco rígido -, em que todas as peças se encaixam e funcionam juntas, poupando trabalho aos clientes", afirma Ellison. Para Andrew Butler, analista do Gartner, esse movimento é ao mesmo tempo ousado e vantajoso. "Estamos vendo cada vez mais empresas partirem para a verticalização, como é o caso da Cisco e agora da Oracle, que nunca tiveram presença em servidores no passado", disse. "Isso pode causar uma pressão por inovação no mercado", acrescenta. A Oracle estima que a empresa adquirida contribuirá com mais de US$ 1,5 bilhão para o seu lucro operacional. No segundo ano, esse valor pode aumentar para US$ 2 bilhões.
Ao mesmo tempo que o software livre pode ganhar impulso com a Oracle, o futuro de algumas soluções da Sun ainda é incerto. De acordo com Ellison, o Java e o Solaris, sistema operacional, foram as principais razões para a aquisição da Sun. A Oracle tem mais bancos de dados rodando em Solaris do que em qualquer outro sistema. No entanto, na gama de produtos oferecidos pela Sun figura um antigo rival da Oracle, o MySQL, sistema de gerenciamento de banco de dados open source - instalado em mais de dez milhões de máquinas no mundo e utilizado pelo Google e pelo Facebook. Em 2007, a Oracle ofereceu, numa terceira tentativa, US $ 850 milhões pela MySQL AB, empresa fundada por dois suecos e um finlandês. Mas quem levou a melhor na disputa foi a Sun, que a arrematou em janeiro de 2008, por US $ 1 bilhão. Com a compra da Sun, a Oracle finalmente leva a ferramenta. Basta saber se a companhia vai manter duas linhas concorrentes dentro de casa. |