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Na mira do xerife
SEC, a CVM americana, investiga fundos de private equity para evitar a criação de uma nova bolha especulativa

Ana Clara Costa

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Arte: Anderson Cattai

Se existe um ganhador quando uma crise acontece na economia, ele certamente é um fundo de private equity. Essa é a teoria (e a aura) que cerca esses investidores que compram participação em empresas de capital aberto ou fechado. Com muito dinheiro em caixa, eles estão há mais de 20 anos no topo da elite financeira comprando e vendendo ativos. Mas, principalmente, os private equities giram uma imensa roda cujo interior não se pode ao certo avaliar. Com o crédito escasso e o valor das empresas desmoronando, o mundo corporativo aguarda com certa ansiedade maquiavélica o primeiro desses grandes fundos desmoronar. A Securities and Exchange Comission (SEC), o equivalente à CVM nos EUA, compartilha do mesmo temor. Por isso, com medo de ser pega novamente de surpresa e tachada de negligente, está convidando os grandes players a “cordialmente” divulgarem um informe detalhado de rendimentos de seus ativos. Os primeiros da lista foram os grupos Blackstone e Fortress, mas outros estão na mira. Terá a SEC finalmente assumido seu papel de xerife em uma Wall Street que hoje mais parece o Velho Oeste?

Mais relevante do que o papel do órgão regulatório norteamericano é o posicionamento dos fundos em questão. Enquanto o Fortress, chefiado por Wesley Eden, abriu seus arquivos sem maiores lamentações, o Blackstone se negou a fazê-lo. A pergunta que paira no ar é: por quê? Não é segredo que private equities têm entre seus principais investidores os fundos de pensão. São precisamente 959 que possuem cerca de US$ 500 bilhões em investimentos em fundos capitaneados pelo Blackstone, Fortress, Carlyle e muitos outros. E os próprios fundos de pensão disponibilizam facilmente em seus sites o rendimento das empresas nas quais investem, incluindo private equities. Sendo assim, por que dizer não à SEC se boa parte das informações já estão disponíveis? Uma das respostas pode ser o medo de desencadear investigações mais profundas no grupo, amedrontando assim novos investidores. “Para muitos grupos, o fato de divulgar todas as informações financeiras tornaria difícil uma nova captação no futuro. A falta de regulação oferece a esses fundos uma vantagem compreensível que eles certamente lutarão para proteger”, explica o executivo Richard Losch, sócio da Losch, Tabakov Capital Management LLC.

Estima-se que o mercado de private equity mundial tenha
US$ 2,5 trilhões em ativos

Em uma carta direcionada à SEC, o grupo Blackstone afirmou não acreditar que o detalhamento dos rendimentos de seus fundos seja relevante para medir os resultados de suas operações no presente, já que se trata de investimentos de longo prazo. No entanto, com um de seus competidores abrindo a caixapreta, o grupo se encontra em uma encruzilhada. Os grupos Carlyle e KKR deverão ser os próximos da lista. Mas o que fascina em todo esse enredo sobre o futuro dos private equities é a aura subjetiva que gira em torno deles. Segundo a empresa de pesquisas Preqin, o valor em ativos de todos os private equities do mundo somou algo em torno de US$ 2,5 trilhões em 2008. No entanto, estima-se que US$ 1 trilhão não tenha sido investido. Na verdade, esse montante continua em poder dos bancos que forneceram crédito para as operações de compra e venda de empresas por fundos de private equity. O que preocupa é que, com a atual situação dos bancos norteamericanos e europeus, ironicamente os maiores fomentadores desses fundos, há o temor de que esse US$ 1 trilhão (ou parte dele) já não esteja mais disponível para ser investido. Por isso, não vemos os fundos de private equity executarem grandes operações de compra mesmo com tantas empresas convertendo-se em pechinchas. No ano passado, cogitava-se se 2009 não seria o ano de os private equities saírem às compras. Até agora nenhum grande negócio foi feito. Chefões como Stephen Schwartzman, do Blackstone, se fecham em seus escritórios e não se movem. Afinal, estáticos eles se protegem. Não precisam requerer com os bancos o capital para investir, o que posterga o hipotético escândalo de não haver dinheiro disponível para saírem às compras. E, com isso, permanecem distantes do fantasma da falência. Mas ainda assim ele está rondando a matriz do Blackstone. O próprio Schwartzman teve seu salário reduzido em mais de 99% em 2008, caindo de US$ 180 milhões por ano para US$ 350 mil. E a SEC está de olho justamente no que esse tipo de detalhe quer esconder.

No Brasil, a situação é diferente, embora também esteja longe do melhor cenário. Menores e mais regulados, os fundos brasileiros até agora não sentiram o baque forte da queda do valor das empresas. Muito pelo contrário. Exemplo disso é o grupo de comunicação RBS, que, recentemente, vendeu uma fatia de 13% para o fundo Gávea, private equity de Armínio Fraga, e inaugurará novas instalações com investimentos estimados em R$ 70 milhões. A diferença é que, ao contrário do que acontece nos EUA, em que os fundos se alavancam para conseguir dinheiro para ir às compras, no Brasil o capital é próprio. “A grande maioria das transações aqui têm sido feitas 100% com capital próprio. Alguns fundos chegaram a fazer alavancagem, mas isso já não está mais disponível”, conta Luiz Eugênio Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) e sócio da Rio Bravo Investimentos. Os fundos alavancados mencionados são da GP Investimentos e da Advent.

O salário do chefão do Blackstone caiu
de US$ 180 milhões
para US$ 350 mil em 2008

Se somente agora a SEC está buscando detalhamento nos investimentos dos private equities, isso no Brasil já é regra há muito tempo. “Esse movimento de regulação no exterior não nos afeta. Nosso mercado sempre foi regulado e nós já fazemos esse tipo de detalhamento”, afirma Figueiredo. Aqui, no entanto, os grandes fundos norte-americanos chegam devagar. Segundo a Preqin, em 2008 os países emergentes corresponderam a 17% dos investimentos dos private equities, enquanto essa participação era de 15% um ano antes (leia gráfico). O único dos gigantes a estar presente no País é o Carlyle, que possui uma carteira diversificada de empresas e investe, sobretudo, no mercado imobiliário. Aplicou um total de US$ 125 milhões em empresas como Scopel e Banco Fibra, e agora há rumores não confirmados de que firme uma parceria com o Banco do Brasil para intensificar suas ações por aqui. “Brasil e China são uma boa saída para esses fundos, já a Rússia não é tanto, pois há uma expectativa de que Putin nacionalize muitas coisas por lá, inclusive empresas cujos donos são private equities”, afirma Richard Losch, da Losch, Tabakov Capital. E a migração para outros países pode ser não só de capital como também de funcionários. Sem muito o que fazer em Nova York e livres das demissões (afinal, pega mal para os fundos), os executivos de private equities fogem do ócio e invadem os escritórios das empresas compradas, palpitando em assuntos que variam de cosméticos a maquinário hospitalar. Tudo em nome da ilusão de um mercado que não quer estar em crise.

Fonte: Preqin Consultoria

 

 


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