Irv Becker, Consultor do Hay Group
"Os bônus para executivos não vão acabar" Por José Sergio Osse

As empresas americanas foram pegas de surpresa pela crise, antes de ajustarem suas políticas de remuneração. Mais do que isso, a comoção pública em torno dos bônus astronômicos distribuídos a executivos está baseada em dados relativos a ganhos anteriores à crise. Essa é a opinião de Irv Becker, líder da área de prática de remuneração executiva do Hay Group dos EUA, consultoria especializada em ajudar companhias a definir política de gestão. Apesar de casos como o da AIG, que pagou US$ 163 milhões em bônus após receber US$ 170 bilhões do Tesouro dos EUA, Becker diz que as políticas de incentivos não estavam necessariamente erradas. "O ambiente econômico mudou. Muda também a política de remuneração", diz. Para ele, é preciso rever políticas e equilibrar incentivos de curto e de longo prazo. Leia abaixo a entrevista concedida à DINHEIRO.
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DINHEIRO - Com os recentes escândalos de altos bônus, como fica a atuação de consultorias como Hay Group, sendo que foram empresas como ela que ajudaram a definir as políticas de incentivos das empresas com problemas?
BECKER - Nossa missão é sempre ajudar as companhias a atingir suas estratégias de negócio. Hoje, essas estratégias mudaram, e nosso papel agora é ajudá-las a enfrentar o ambiente econômico atual. Nós recomendamos que nossos clientes não tenham uma reação apressada. O importante é reavaliar a situação,repensando nesse contexto a política de bônus. No caso das empresas financeiras, não acredito que os problemas enfrentados por elas hoje tenham sido causados pela política de recompensa, mas sim pelo risco alto inerente à política escolhida. Mas nossa missão é fazer com que os projetos estejam alinhados com suas novas metas estratégicas.
DINHEIRO - Como explicar que, apesar do trabalho das consultorias de gestão, a situação chegou ao ponto em que está?
BECKER - Nas empresas financeiras, a forma de pagamento de bônus é muito diferente daquela adotada, por exemplo, pelas indústrias mais admiradas da (revista) Fortune. Mais de 80% dos bônus pagos por bancos, seguradoras e afins estavam ligados a resultados de curto prazo. Entre as empresas da Fortune, essa proporção talvez não chegue a 30%, sendo que, nessas mesmas companhias, 60% das recompensas estão ligadas à performance de longo prazo e baseadas em objetivos específicos. Isso é diferente nas empresas financeiras, que pagam salários baixos e bônus muito grandes, alguns na forma de ações. Embora vejam isso como uma compensação de longo prazo, o fato é que elas têm base em resultados imediatos. Portanto, o problema não está relacionado aos bônus, mas sim ao risco do negócio financeiro, que é muito alto e acabou sendo transferido para os bônus.O erro talvez tenha sido adotar essas políticas pensando mais no risco imediato do que numa eventual crise no mercado, como a que acabou ocorrendo. No futuro, as empresas terão que mudar o mix de seus pagamentos e se concentrar mais na recompensa por resultados de longo prazo.
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DINHEIRO - E, agora, qual será o papel de consultorias de gestão na orientação das empresas que dão bônus?
BECKER - Temos que apoiar as empresas para que não entrem em pânico por conta da situação do mercado e acabem por tomar decisões ruins. Mas vemos, também, esse momento como uma oportunidade para sugerir que reavaliem suas próprias políticas de remuneração. Muitas empresas nos EUA - e acredito que em todo o mundo - serão forçadas a mudar sua estratégia de negócios por conta da crise. Quando isso acontece, é necessário também reavaliar a política de remuneração. Afinal, se o ambiente econômico e de mercado muda, isso também tem que mudar. Num ambiente como o atual, várias organizações caminham para um programa mais direcionado para o crescimento do faturamento.
DINHEIRO - E as próprias empresas, o que devem fazer para solucionar seus problemas relacionados à política de remuneração?
BECKER - Acredito que as empresas tenham que ser mais explícitas em relação à descrição de suas regras de bônus. Mas o importante é que as companhias equilibrem melhor seus objetivos de curto e de longo prazos e adotem um plano de recompensa compatível. É também preciso que elas tenham um pacote de incentivos de curto prazo ligados a objetivos de longo prazo.
DINHEIRO - E como fazer isso?
BECKER - O ideal é ter um portfólio de recompensas que seja composto de várias ferramentas de remuneração que apoiem uma política balanceada de bônus. Há três mecanismos que permitem esse balanceamento: a distribuição de opções de ações, o pagamento na forma de ações restritas e a entrega de ações de performance. Cada uma dessas ferramentas tem objetivos diferentes, sendo umas de prazo mais longo que outras. O importante é balancear a recompensa de forma eficiente. Ter pelo menos dois desses mecanismos no portfólio de recompensas é sinal de equilíbrio na política da companhia.
DINHEIRO - Mesmo sabendo das dificuldades do mercado, por que as empresas mantiveram os bônus em patamares tão altos?
BECKER - Um assunto quente hoje nos EUA é a divulgação dos bônus pagos aos executivos, e o momento em que esses dados são disponibilizados. As informações que estão sendo divulgados hoje se relacionam aos bônus pagos em todo o ano de 2008. Mas, da forma como são pagos os benefícios, incluem aqueles referentes a 2007, quando o mercado ainda estava bem. Embora os bônus na realidade estejam caindo, os números vêm altos, causam confusão e não condizem com os que a opinião pública acredita serem justos. Os números que realmente mostram o declínio nos ganhos dos executivos virão no final deste ano. Por isso, acho que seria importante que as empresas tomassem a iniciativa e dessem informações adicionais sobre a remuneração de seus executivos, assegurando que seus ganhos estão adequados à realidade. A reação certamente será negativa, mas o principal é lembrar que o cálculo dos bônus foi feito antes de o mercado entrar em crise.
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