Sob nova direção Governo muda presidente do Banco do Brasil e orienta o banco a reduzir os juros e aumentar o crédito
Denize Bacoccina
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O eleito: Bendine (à esq.), funcionário de carreira, substitui Lima Neto, anunciou Mantega (à dir.) |
Foi uma mudança súbita e surpreendente. Ao anunciar, na quarta-feira 8, a troca de comando na presidência do Banco do Brasil, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, operou na instituição muito mais que uma simples troca de nomes. A saída de Antonio Francisco de Lima Neto e a entrada do vice-presidente de Cartões e Novos Negócios de Varejo, Aldemir Bendine, indica uma guinada na gestão do banco de modo a torná-la mais afinada com os interesses do governo. O homem que sai, Lima Neto, ajudou a resgatar a imagem do banco, deu um tom mais profissional à direção e colocou-o em linha com a competição cada vez mais acirrada com os bancos privados. O que entra, Bendine, tem a missão de implementar um caráter mais público à instituição estatal e lançá-la à liderança das iniciativas do governo em algumas de suas principais batalhas, como a queda dos juros. De quebra, recebe a orientação de recolocar o BB no topo do ranking do setor, posição perdida com a fusão do Itaú com o Unibanco, no ano passado. "O banco continua sendo um maiores do Brasil, está muito perto e voltará a sê-lo", afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na entrevista coletiva para anunciar a mudança.
A troca de comando vazou na noite de terça-feira. Na manhã do dia seguinte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não a confirmou, mas indicou o que estaria por trás: a irritação presidencial com os altos spreads (diferença entre o custo de captação de recursos e o dos empréstimos) dos bancos. "A redução dos spreads é uma obsessão minha. Quem tem banco público pode começar com essa tarefa de reduzir o spread bancário", afirmou Lula. Bendine, o novo presidente, recebeu o cargo com o compromisso de traçar metas ambiciosas para aumentar o volume de crédito oferecido pelo banco, reduzir os juros e o spread e aumentar a base de clientes. "Queremos ganhar market share", disse Mantega. O ministro também prometeu ousadia, mantendo os princípios de responsabilidade que já vinham sendo seguidos.
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Troca da guarda: Bendine, Mantega e Lima Neto anunciam a mudança no comando |
A substituição de Lima Neto já vinha sendo discutida, em segredo, há algum tempo. A insatisfação de Lula com os juros cobrados pelo banco cresceu com o agravamento da crise financeira nos últimos meses. O governo foi obrigado a agir, dando liquidez suficiente ao sistema bancário e reduzindo os juros básicos do Banco Central, mas não conseguiu forçar uma queda mais forte das taxas cobradas pelos bancos para os tomadores finais de crédito. O BB e a Caixa Econômica Federal, que em tese deveriam puxar para baixo as taxas de juros para pessoas físicas e empresas, não corresponderam às expectativas de Lula.
O resultado foi a troca no comando do BB, um banco que também tem acionistas privados, para que participe com mais desenvoltura na política econômica do governo. Logo após a demissão de Lima Neto, mais identificado com uma gestão profissional, as ações do banco fecharam em queda de 8,15% na quarta-feira 8.
Lima Neto e Aldemir Bendine têm trajetórias semelhantes no Banco do Brasil. Aos 45 anos, o novo presidente - a exemplo do anterior - é funcionário de carreira há 30 anos. Já foi vice-presidente de Varejo e Distribuição e secretário-executivo do Conselho Diretor. Já representou o Banco do Brasil na Febraban e é diretor-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões e Serviços (Abecs). Bendine não é filiado ao PT, mas ficou próximo ao chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, quando participou da operação em que o BB emprestou cerca de R$ 15 milhões ao partido para a compra de computadores e impressoras. Na entrevista ao lado do presidente demissionário e do ministro Mantega, Bendine falou pouco. Apenas prometeu reduzir o spread e aumentar o volume de crédito, como pediu o presidente. É considerado um conciliador pelos colegas, o que pode ser útil na difícil missão de acomodar os interesses dos dois donos da instituição: o Estado brasileiro, com 70% das ações, e os restantes 30%, nas mãos de acionistas privados. Enquanto o governo quer usar o banco para destravar o crédito e ajudar a economia a crescer, os acionistas minoritários querem ver seu dinheiro render. Bendine terá de provar que é possível fazer lucros com spreads menores. O modelo a ser seguido seria a Petrobras, outra empresa de economia mista. Se amargou o prejuízo com o congelamento dos preços para o consumidor no ano passado, quando o petróleo disparou no mercado internacional, a empresa agora está conseguindo recompor seu caixa ao manter os preços estáveis no atual momento de baixa.
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Na disputa pelo topo do mercado, Lima Neto deixa o banco próximo ao empate com o Itaú Unibanco. Depois de perder a liderança no mercado nacional, o Banco do Brasil foi às compras, especialmente em busca dos bancos estaduais que restaram. Comprou o BEP, do Piauí, o Besc, de Santa Catarina, e a Nossa Caixa, de São Paulo. Ampliou a presença no Estado mais rico do País e entrou pesado no mercado de financiamento de veículos ao adquirir metade do Banco Votorantim, negócio que ainda depende de aprovação final do BC. Agora, negocia a compra de mais dois bancos estatais: o Banestes, do Espírito Santo, e o BRB, do Distrito Federal. Quando concluir esses negócios, o Banco do Brasil terá um portfólio mais completo, atuação em todos os segmentos bancários e estará de novo na disputa pela liderança, com mais R$ 14 bilhões em ativos para engordar suas carteiras. Em total de ativos, o Itaú Unibanco está à frente, com R$ 633 bilhões, e o BB em segundo, com R$ 612 bilhões. Por alguns critérios, como depósitos totais, o BB continua em primeiro. Em entrevista à DINHEIRO cinco dias antes de deixar a presidência da instituição, Lima Neto disse que via o mercado como num "empate técnico". Disse que já estava encerrada a fase de aquisições e que o banco se dedicaria agora a consolidar o que já tem e continuar com o crescimento orgânico. O plano estratégico prevê a abertura de 100 novas agências até o fim do ano.
O mercado ficou surpreso com a mudança de comando. "Surpreende um pouco, porque há anos não se via uma intervenção. Mas o governo é o acionista majoritário", diz o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luis Miguel Santacreu. "Com o crédito em queda e a inadimplência em alta, os bancos estão contando com o spread para tentar preservar seu lucro. Vamos ter que aguardar para ver as novas tabelas de juros e se a redução será compensada com aumento de volume", disse.
A redução dos spreads é uma obsessão minha"
presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Os números do ano passado, porém, mostram uma instituição em linha com os concorrentes privados. Indicadores como índice de inadimplência, eficiência e presença nos principais mercados mostram que o BB conseguiu deixar para trás a imagem que tinha nos anos 80 e início dos 90, quando era visto como um banco ultrapassado. O índice de eficiência - a parcela que as despesas administrativas representam das receitas operacionais - despencou de 70% nos anos 90 para 45,3% no ano passado, bem próximo à média de 43% do setor privado. Nos últimos anos, o banco também investiu em segmentos que antes eram negligenciados, como cartões de crédito, área do novo presidente. Essa carteira subiu de R$ 24,8 bilhões em 2004 para R$ 64,3 bilhões no ano passado. Aumentou, da mesma forma, o volume de ativos por funcionário - de R$ 2,7 milhões para R$ 5,2 milhões entre 2004 e 2008 - e o crédito por agência dobrou, para R$ 51,8 milhões. |