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Wilson Amaral, presidente da Gafisa
"O Brasil precisa de mais de um milhão de casas"
POR AMAURI SEGALLA

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Nos últimos 90 dias, o administrador de empresas Wilson Amaral, 56 anos, reuniu-se com ministros, técnicos do governo federal, especialistas do mercado imobiliário e representantes do setor da construção para a elaboração do pacote habitacional lançado pelo presidente Lula no final de março. Presidente da Gafisa, maior construtora do Brasil, Amaral acha que o projeto vai provocar uma grande transformação na venda de imóveis. Segundo o governo, o pacote tem potencial para gerar um milhão de casas. Amaral diz que isso não só é possível como necessário para atender a uma demanda que faz do mercado brasileiro um dos mais promissores do mundo. Na condição de um dos autores do projeto, Amaral explica por que ele é positivo para o Brasil, faz um balanço do desempenho do setor e da Gafisa em 2008 e aponta para um cenário de crescimento em 2009 e 2010.

DINHEIRO - Que avaliação o sr. faz do pacote habitacional lançado pelo governo?
WILSON AMARAL - O pacote é excelente. Quando começou a discussão, a pergunta era: o que o governo precisa fazer para viabilizar a compra de imóveis? Como tornar o sistema mais acessível? Não é uma questão só de produzir casas baratas. Se eu tenho uma casa que é vendida a R$ 70 mil, posso inventar uma tecnologia inovadora que faz com que o preço dela caia para R$ 50 mil. Ainda assim, a pessoa não iria comprar. Quando vendo um bem, tenho dificuldade para conseguir até mesmo 10% de entrada. Ou seja, o problema é de financiamento e é justamente esse ponto que o governo ataca. Daí a ideia de financiar 100% do imóvel ou um percentual muito próximo a isso.

DINHEIRO - Mas a questão também não diz respeito ao valor da prestação? Se o País tem um problema de renda, como fazer para que as prestações caibam no orçamento das pessoas?
AMARAL - Existiam muitos entraves que aumentavam o valor da prestação. Por exemplo, gastamos horas discutindo a questão do custo de seguro dos financiamentos. O valor era alto demais para os de baixa renda. Não fazia sentido pagar às vezes até 30% do valor da parcela, dependendo da idade, a título de seguro. Não é assim no mundo. Foram feitos inúmeros estudos e, no final, houve uma redução significativa desse valor. Se você tira R$ 100 da prestação, são milhares de novos compradores que entram no sistema. O governo também reduziu os custos cartoriais, depois de consultar representantes do setor. Isso não vem para nós, vai direto para o bolso do cliente. A diferença do pacote é essa. Ele beneficia essencialmente os compradores. Por isso, a chance de funcionar é muito grande.

DINHEIRO - Qual será o impacto do pacote para o setor da construção?
AMARAL- Será grande. O nosso veículo do setor de baixa renda é a Tenda. Já percebemos uma mudança sensível na temperatura dos negócios. Antes do anúncio do pacote, a Tenda registrava em média 20 ligações por dia de pessoas interessadas em nossos imóveis. Na semana do anúncio do pacote, registramos, em três horas, cerca de três mil ligações. Não estamos criando demanda. Estamos criando uma forma de atender à demanda, que já está pronta.

robson regato/ag. istoé

DINHEIRO - O setor já começou a sentir os reflexos do pacote?
AMARAL- Se tudo funcionar bem, haverá um reflexo principalmente no segundo semestre. Mas acredito que o ano de 2010 será profundamente impactado, inclusive com uma forte geração de emprego. Sem o pacote, havia o sério risco de o desemprego atingir a construção no final de 2009, quando começarão a ser entregues as obras que foram vendidas no auge do crescimento, há dois anos. Você precisa tomar uma medida agora para garantir que a curva de construção, que cresceu exponencialmente em 2007 e 2008, continue evoluindo na mesma intensidade.

DINHEIRO - O pacote contempla principalmente os de baixa renda. O correto não seria estendê-lo para a classe média?
AMARAL- O pacote pega uma boa faixa de renda. Ele abrange de zero até dez salários mínimos, o que dá mais de 90% da população. É muita coisa. Os problemas de financiamento para as classes acima de dez salários mínimos não têm nada a ver com os problemas da baixa renda. Na verdade, a grande carência habitacional do Brasil está justamente na base. Isso explica porque ela é o grande foco do governo e das empresas do setor.

DINHEIRO - O presidente Lula afirmou que o pacote tem potencial para a construção de um milhão de casas. Esse número é possível?
AMARAL- Em 2008, foram concedidos cerca de 400 mil financiamentos imobiliários no Brasil, para imóveis novos e usados, abrangendo todas as classes. O pacote tem potencial para fazer esse número crescer muito, mas ainda é cedo para prever exatamente quanto. A pergunta que se deve fazer, e que o governo e todos nós fizemos, é como conceder um milhão de créditos.

DINHEIRO - Há muito tempo se diz que o mercado brasileiro é um dos mais promissores do mundo, se não for o mais promissor. Isso é fato?
AMARAL- Para responder a essa questão, é preciso analisar a demografia brasileira. O Brasil tem um déficit de 7,2 milhões de moradias. A cada ano, mais ou menos 1,7 milhão de novas famílias são formadas. Ou seja, além do déficit histórico, você precisa suprir essa necessidade anual de 1,7 milhão de novas moradias para atender quem acaba de constituir família. É uma demanda brutal, certamente uma das maiores do mundo. Por isso, quando se fala em um milhão de moradias que o pacote vai gerar, não se está exagerando. É um número agressivo, mas o Brasil precisa muito mais do que isso. Como já foi dito, o fundamental é ajustar a questão do financiamento. O resto está pronto. É a demanda forte de um lado, estimulada pela demografia brasileira, e de outro lado as empresas, que têm uma capacidade de resposta muito boa. Nós sabemos que, por mais competente que uma empresa possa ser ao produzir casas para a baixa renda, se não tiver um sistema de financiamento adequado, não há empresa que seja capaz de desenvolver este mercado. Precisa ter a participação do governo. O presidente Lula entendeu isso. É assim que funciona no mundo.

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