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La garantia soy yo
Por Gustavo Gantois

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Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, é um tipo peculiar. Tem tanto dinheiro que, segundo as colunas sociais do Rio de Janeiro, ele estaria comprando água-de-coco com notas de R$ 100, sem pedir o troco. Na semana passada, mais uma vez, ele deu provas de desprendimento. Horas depois de anunciar prejuízo de R$ 848,8 milhões numa de suas companhias, a mineradora MMX, ele tomou uma decisão rara no meio empresarial brasileiro. Disse que emprestará US$ 200 milhões do próprio bolso à empresa, sem cobrar juros. E fez mais. Garantiu que a dívida só será exigível em duas hipóteses: falência ou a venda da mineradora por mais de R$ 3,00 por ação. Na prática, ele acabou dando um piso para a própria ação. E, em poucos dias, o papel disparou. Foi a grande estrela da Bovespa nos últimos pregões, subindo mais de 70%. Foi como se Eike, à moda dos caudilhos latino-americanos, dissesse aos seus acionistas minoritários: "La garantia soy yo". Para melhorar ainda mais a festa dos seus investidores, ele colocou a MMX à venda, sinalizando que busca interessados na Ásia. Mais precisamente, na China.

RENATO VELASCO
Eike Batista colocou US$ 200 milhões do próprio bolso numa de suas empresas que ia mal das pernas. Mas vendê-la aos chineses talvez não seja tão simples

Num País em que acionistas controladores costumam lesar os minoritários, o gesto de Eike merece aplausos. Mas também não custa buscar os motivos da generosidade. Autointeresse, talvez. Eike fez um patrimônio de R$ 16 bilhões vendendo projetos futuros, que ainda não saíram do papel. E essa fortuna só ficará de pé se ele não tiver uma história de fracasso no mercado de capitais. Mal das pernas, a MMX estava parada. Mas, como a mineradora representa cerca de 15% da riqueza pessoal de Eike e o grosso vem da empresa de petróleo OGX, salvá-la pode ter sido necessário para evitar um contágio negativo na galinha dos ovos de ouro.

Quando fez o IPO da MMX, Eike prometia criar uma empresa brasileira de minério de ferro para concorrer com a Vale. Filho de Eliezer Batista, que já foi presidente da exestatal, ele teve de responder, durante muitos anos, às críticas de que recebera do pai um mapa da mina das riquezas brasileiras. Mas o que surpreende agora é a decisão de vender sua empresa justamente para o país que trava um grande conflito comercial com o Brasil - os chineses querem obrigar a Vale a reduzir em 40% o preço do minério. Com acesso livre ao mercado brasileiro, os chineses poderiam subsidiar o minério às siderúrgicas, tornando-se autossuficientes na definição do preço. A Vale perderia e, em consequência, perderia também o Brasil. No ano passado, a exportação de minério representou 8,36% de tudo o que o País vendeu. Até fevereiro deste ano, a participação já chega a 10,45%, sendo que a China é responsável por 44% disso.

Ao anunciar a intenção de venda, Eike expôs suas razões. "Os chineses estão vindo", disse. "E precisamos sair dos segmentos em que eles serão competitivos." Ocorre que eles não são competitivos em minério de ferro. Só serão se tiverem acesso aos ativos brasileiros. E Eike, além de negociar o controle da MMX, pretende vendê-la acoplada a uma de suas outras empresas: a LLX, do setor portuário. Portanto, além do minério barato, os chineses teriam a logística de exportação. Só que há um detalhe: a LLX acaba de receber um aporte do próprio BNDES. E o banco, que tem entre suas missões a de fomentar o comércio exterior brasileiro, poderia estar contribuindo com um negócio, que, a médio prazo, reduziria o preço do minério e a competitividade do principal produto da pauta de exportações nacional.

Até agora, Eike conseguiu superar todos os obstáculos que surgiram à sua frente. Mas vender parte do subsolo brasileiro aos chineses talvez não seja tão simples. O Instituto Brasileiro de Siderurgia sente calafrios só de pensar nessa hipótese. "O governo precisa acordar para a movimentação deste senhor", afirma um dos diretores do IBS. "Colocar em xeque nosso principal produto no mercado externo é acabar com a soberania num setor estratégico."

 

 


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