A conta vai chegar Denize Bacoccina

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Timothy Geithner e Ben Bernanke anunciam pacotes de trilhões de dólares todos os dias, mas os compradores da dívida pública americana já começam a ficar assustados - assim como os contribuintes |
Se fosse um bolero, os passinhos poderiam virar trilhões. São dois trilhões pra cá, dois trilhões pra lá. E até agora fez pouca diferença - a não ser no bolso de alguns investidores mais espertos, que conseguiram capitalizar a esperança de dias melhores e embolsar a alta de quase 7% na Bolsa de Nova York na segunda-feira, quando o secretário de Tesouro, Timothy Geithner, anunciou seu novo pacote. A semana começou com outras boas notícias, mas o otimismo não durou muito. No dia seguinte, nova queda, e uma luz amarela. Depois do estouro da bolha imobiliária, que deu origem à crise na economia real de todo o mundo, agora vem por aí a bolha da dívida. Quando assumiu, Obama já havia herdado um déficit de US$ 1,2 trilhão. Mas a previsão da equipe técnica do Congresso é de um buraco de US$ 1,8 trilhão no ano fiscal que se encerra em setembro. Para o próximo ano, a previsão é de que os US$ 700 bilhões previstos no início do ano dobrem para US$ 1,4 trilhão. Dez entre dez economistas concordavam, no início do ano, que o déficit era assunto para depois. O urgente, agora, é estimular a economia para evitar uma recessão. Bem, a recessão não foi evitada. E agora, que o Federal Reserve começou a emitir dinheiro - US$ 1 trilhão só na primeira leva -, a preocupação é outra. Imprimir dinheiro, como os brasileiros bem sabem, gera inflação. Ela deve ficar represada num primeiro momento, com a demanda em queda e os países desenvolvidos com forte retração neste ano. Mas pode aparecer mais tarde. E algumas consequências já começaram a dar as caras. Na semana passada, Estados Unidos e Reino Unido tiveram dificuldade para vender títulos do governo. Títulos do Tesouro americano, que hoje pagam entre zero e 0,25%, foram vendidos por uma taxa mais elevada depois que o Fed comprou US$ 7,5 bilhões. Já o governo britânico não conseguiu vender os títulos que ofereceu. É a primeira vez que isso acontece desde 1995.
Por enquanto, o Federal Reserve pode imprimir dólares e dormir tranquilo. Mas nem tanto. Também na semana passada, o presidente do banco central chinês, Zhou Xiaochuan, fez barulho ao propor a criação de uma nova moeda para colocar parte de suas reservas. Geithner chegou a elogiar a ideia, mas o tombo na cotação do dólar naquele dia fez com que voltasse atrás rapidamente. A China, como se sabe, é o maior credor individual dos Estados Unidos, dona de quase US$ 1 trilhão em papéis americanos. Não por acaso, foi para a China a primeira viagem da secretária de Estado, Hillary Clinton, logo no primeiro mês de governo. A dependência é mútua. Foi baseado na expansão de dois dígitos da China que o mundo se beneficiou do forte crescimento dos últimos anos - antes da paralisia do último trimestre do ano passado. A interdependência com os americanos foi baseada na venda de manufaturas e compra de títulos, que por sua vez financiava na conta de capitais o déficit comercial. A visita de Hillary buscou garantir que o equilíbrio será mantido, mesmo em tempos de crise.
O que mais surpreende, em todo este processo de contínua putrefação do sistema financeiro, é a resistência da sociedade americana - e a falta de coragem do governo em enfrentá-la - a uma estatização clara das empresas quebradas. Neste momento de falta de confiança, a postura dupla do governo americano não ajuda. Ao mesmo tempo que precisa mostrar ao mercado que será capaz de limpar o sistema dos créditos pobres, Geithner anuncia gastos de trilhões de dólares, como se não houvesse limites para a emissão de moedas. Como ensinava o economista Milton Friedman: não existe almoço grátis. |